sábado, 28 de julho de 2018

Capítulo 21 - Fantasma

O pequeno objeto era uma caixa, dentro dela um celular. Tinha bateria e parecia ser novo e de bom funcionamento. Achei estranho. Liguei. Na agenda apenas um número salvo, sem nome do contato. Entre as mensagens recebidas, novamente o mesmo número. No corpo do texto, o pedido: “Me liga!”.
Laura havia feito questão que nós pegássemos o ursinho. Se ela estivesse aqui, é provável, então, que fizesse essa ligação. Ou não. Sei lá. Na falta de algo melhor, nunca me faltou coragem. Liguei.
- Laura? - perguntou prontamente a voz de um homem idoso.
- Quem está falando? - questionei, com medo da resposta que pudesse ouvir.
- Quem é você? Por que está com esse telefone? Como está a Laura? - desesperou-se.
- Laura me deu esse telefone. Ela confia em mim. Diga se eu posso confiar em você.
- Só Laura pode confiar em mim. Você está falando com um fantasma.
- O menino precisa de sua ajuda.
- O que aconteceu com ele? Eu juro que mato você! Com quem diabos estou falando?
- Com o pai legítimo da criança! Preciso que esse fantasma tenha nome. Agora. Se não vou desligar.
Silêncio.
- Não desliga. Porra, Laura me falou de ti. Tu estás falando com Lauro.
Naquele momento, um segundo se passou. Mas esse era só o tempo “real”, sobre o qual a limitada percepção humana se debruça. Na minha cabeça, tive horas - talvez dias - disponíveis para buscar tudo o que sabia sobre esse nome. Alex me pediu atenção a um tal Lauro Buarque. João Lauro Buarque Rinaldi era o responsável por um testamento que beneficiava o meu filho. E ele sabia de mim. Enfim, eu estava chegando perto de alguma coisa nessa história confusa.
- Fala alguma coisa, porra! Cadê a Laura? - interrompeu o silêncio.
- Tá com o Alex. Correndo perigo. - no desespero, preferi mentir.
- Filho da puta! Eu vou matar esse verme!
- Vamos matar juntos. Mas, antes, preciso de ajuda. Precisamos. Eu e o guri.
- Que história é essa? Vou mandar meus homens até aí.
Pensei bem naquele diálogo que estava tendo. Numa conta rápida, eu só conseguia pensar que esse Lauro tinha de ser um inimigo de Alex e avô do garoto. Mais do que nunca, o inimigo do meu inimigo tinha que ser o meu melhor amigo. E me restava apenas confiar naquele que estava do outro lado da linha.
- Se você está falando das duas torres gêmeas que morreram na casa da Laura mais cedo, acho que você não tem mais homens.
- Do que você tá falando?
- Mais cedo, dois homens foram à casa de Laura buscar o menino. Amarraram Laura e o delegado, mataram um policial. Eu estava lá.
- O delegado escapou, então? - perguntou, deixando claro que sabia do que se tratava a visita do B1 e do B2.
- Sim. Seus homens estão mortos. O policial também. O delegado fugiu e mandou seus homens nos perseguirem, mas não nos encontraram… ainda.
- Certo. Me diga aonde você está.
Quando me dei conta de que estava colocando a vida do meu filho nas mãos de um desconhecido que tem capangas, travei.
- Alô! Você ainda tá ouvindo?
- Sim, estou.
- Me dê um endereço, um ponto de referência.
- Não.
- Como assim?
- Preciso que você me explique o que está acontecendo.
- Não temos tempo para isso.
- Eu juro que desligo.
Mais uma vez, silêncio. A respiração ofegante do velho era o único som naquela ligação. Pensei em tudo novamente. Alex me disse o nome dele. Mas, por que não pediu nada sobre ele?
- Os capangas eram meus. O policial morto me traiu. O delegado tinha informações que me interessam, deveria estar amarrado em meus pés nesse momento. É só isso o que você precisa saber.
- Não. E por que eles amarraram Laura? Por que queriam o guri?
- Laura é uma menina instável. Nem sempre aceita minha ajuda. Por isso, ela tinha que vir, querendo ou não. E o guri precisa ser cuidado agora.
- Enquanto você não me der explicações concretas, não vamos nos ver pessoalmente. É simples. Desembucha! Quero detalhes.
- Bota o menino no telefone.
Deixei o piá murmurar no telefone. Era impressionante como ele fazia silêncio durante todo aquele tempo. Ele só precisava de seu urso. Nada mais importava naquele mundo de inocência do meu filho. Cada vez que eu pensava isso era mais assustador: meu filho.
- Eu tinha negócios com o delegado e com aquele policial morto. Eles foram me tirar da jogada. Um, morreu. O outro ainda pode ser útil, pode me levar ao Alex.
- Por que você quer o Alex?
- Além de estar com a minha filha, ele se meteu nos negócios. Investigou o que não devia. Chegou perto demais do meu nome.
Me peguei pensando: ele tenha descoberto seu envolvimento? O velho tinha a certeza de que não, aparentemente, mas era uma certeza da qual eu não compartilhava. Mas, se descobriu algo, por que não me mandou atrás dele também?
- O delegado me traiu. Com ele, muitos viraram as costas para mim. - continuou.
- Mas e o Alex?
- O Alex virou culpado porque investigou seu superior. Mas o que o idiota não entendeu é que eu não tinha o delegado apenas como um protegido. Ele era minha garantia de que o desvio de carga não viria à tona. E, se viesse, eu não teria meu nome envolvido nisso.
- Mas será que agora ele sabe? Por que ele foi atrás da Laura? - sustentei a minha mentira.
- Laura me deixou sempre um passo à frente do Alex. Roubou todos os arquivos que me incriminavam. E ele nunca soube de nada. Mais fácil ter descoberto que é corno.
O velho não se deu conta de que a minha mentira não se sustentava. Como eu saberia que ela estava com Alex? Essa aflição crescia quando o meu mundo caiu. Como assim, Laura ajudando um corrupto? Mesmo que fosse seu pai, essa era uma grande surpresa para mim.
- Então, vamos recuperar a Laura e dar um sumiço no Alex? Mas o que me garante que você também não vai se livrar de mim?
- Preciso de um novo infiltrado nessa delegacia, e sei que você é policial. E, afinal de contas, meu neto precisa de um pai.
- E o delegado?
- Cuido dele depois.
Eu não fazia a menor ideia do que fazer. Mas, ter a possibilidade de um apoio poderoso para sair daquela cidade com vida e ainda ter a chance de acabar com o Alex era o melhor cenário.

- Certo, vou lhe enviar a localização.

sábado, 14 de julho de 2018

Capítulo 20 - O Caixão de Laura

Depois de me livrar do último perseguidor, entrei em um bairro da periferia. O marcador de combustível estava na reserva. Senti odor de gasolina. Com todo aquele tiroteio era bem provável que tivessem acertado nosso tanque. Eu teria de abandonar o automóvel. Vi um terreno baldio na esquina de uma quadra com um sobrado caindo aos pedaços e mato alto em torno da construção. Decidi entrar com o carro ali mesmo. Não havia muros ou tapumes e o local parecia desabitado. Estacionei entre a vegetação alta ocultando o veículo ao lado da casa em ruínas. Por sorte, as ruas se apresentavam desertas. A possibilidade de alguém avistar nossa invasão era remota. A madrugada em silêncio nos acobertava.
Apostei que não poderiam nos encontrar de imediato naquele lugar. Eu precisava ganhar algum tempo para organizar as ideias e retomar o controle da situação. Ainda com as mãos no volante, olhei para o lado e encarei Laura. Desliguei os faróis. Tive o impulso de abraçá-la e o fiz. Enchi os olhos de lágrimas como não fazia há muito tempo. Uma bala acertara o seu rosto do lado direito, bem no malar. Parte de sua beleza se esvaíra com o ferimento fatal. O rosto cheio de sangue e a pele arroxeada identificavam sua nova condição. As pálpebras abertas e os olhos estáticos fitavam o nada. Percebi a ponta da bala como um verme de metal aparecendo de forma sutil no alto de sua testa.
Eu não podia mudar as coisas que tinham acontecido. Mas o menino Nicolas, sentado atrás do banco do carona, ainda estava vivo. Talvez existisse um pouco de esperança para eu fazer algo de bom nessa existência. Peguei o pequeno e o acolhi em meus braços. Aconcheguei-o em meu peito e segurei a sua cabeça de maneira que não olhasse para o lado. Ele não merecia conviver com a imagem da morte da mãe gravada em sua memória.
Nicolas não chorara, nem mesmo com os trancos e barrancos pelos quais havíamos passado. Sua expressão era apenas de alguém que não compreendia onde estava ou o que acontecia. Levantei o olhar depois de verificar a inexistência de ferimento no menino e constatei, pelo espelho retrovisor do carro, o reflexo de uma viatura. O veículo rodava em baixa velocidade. Gelei. Sem dúvida estavam nos procurando. Meu coração pulou intensamente. Talvez eu já não fosse mais o mesmo, um sujeito de sangue frio como sempre me considerei. Por um momento, pensei que pudessem nos encontrar. Separar-nos em definitivo. Mas passaram batido.
Concluí que mais cedo ou mais tarde nos achariam caso permanecêssemos escondidos naquele terreno decrépito. Eu precisava fugir com o menino. No entanto, não queria deixar o corpo de Laura largado daquela maneira. Não queria perdê-la uma segunda vez. A minha consciência pesava. Arrependimento e tristeza me abalavam, deixando-me prostrado. Demorei um pouco para sair daquela inércia. Quanto mais eu ficasse protelando, pior. O cheiro de morte já começava a impregnar o carro. Então, peguei da mão da minha Laura a automática que seus dedos frios ainda apertavam como garras. Duas balas seriam mais do que suficientes para Alex, se eu o encontrasse em meu caminho. Abri a porta e saí com Nicolas do caixão de sua mãe.
Meu filho ainda segurava o urso de pelúcia que apertava junto ao meu peito. Nas costas do boneco havia um zíper. Estava entreaberto. Por curiosidade, decidi puxar o cursor e encontrei um pequeno objeto enrolado em um papel.

sábado, 7 de julho de 2018

Capítulo 19 - Dualidades

O tempo e o espaço tornaram-se difusos. Perdi a força diante da possibilidade iminente de morte da mulher da minha vida. Da mãe do meu filho. Da chance de uma família, vida normal, enfim, a qual vislumbrara a partir dos últimos acontecimentos. Um mundo de expectativas esvaiu-se no relance de um olhar desviado do caminho, rápido o bastante para alguém já íntimo da frieza da morte. Esta que tem cara, tem jeito e odor. Laura estava morta, e eu não tinha dúvidas disso, apesar de ainda assim, checar em vão sua pulsação. Todas as circunstâncias levavam ao meu fracasso; e, por um instante, o pé do acelerador chegou a hesitar. Acabou tudo, pensei. “Tudo, não” - o choro de criança recordou.
Ela jamais me perdoaria se eu deixasse algo acontecer com nosso filho. “Nosso filho”, quase conseguia me acostumar com aquela denominação.
Ouvi os parachoques mais uma vez roçando um ao outro, ruído que despertou minhas antigas habilidades em perseguição, ainda que normalmente ocupando a posição de quem persegue. Entretanto, foi também com meus vacilos que aprendi, foram os delinquentes mais habilidosos que me ensinaram: mais do que velocidade, o mérito da agilidade. Aproveitar-se da curta distância e alta velocidade, cortar-lhes o tempo de reação.
- Por ti, garoto! - Com um só braço o agarrei pela camiseta e o puxei para baixo, bem atrás do banco onde o corpo da mãe estava.
Podia sentir aqueles olhos de guri assustado fitando a minha figura ainda estranha, e quase ouvir rasgando sua inocência infantil, açoitada pelos últimos fatos.  
O pé voltou a afundar no acelerador, e numa guinada o carro retomou a velocidade, abrindo vantagem suficiente para uma escolha precisa. Na rua mais estreita que avistei, entrei. Uma, duas, três, na quarta quadra já não avistava mais o perseguidor, e a cada uma das que seguiram meu coração desacelerava um tanto. Mantinha apenas o necessário para fazer funcionar a cabeça, batimentos feito turbinas. Sempre trabalhei melhor sob pressão.
Segui dirigindo. Destino algum parecia suficientemente seguro. Tampouco pessoas confiáveis.
Recapitulei, informações ainda nebulosas, frases soltas, recortes cênicos vividos, contados e imaginados, sem lugar definido na trama montada em minha cabeça. O pai de Laura, o delegado, as torres Gêmeas. Papéis de mocinhos e vilões ainda não definitivamente distribuídos. Tramaram para Alex. Alex tramou para todo mundo. E essa era apenas uma das diversas dualidades das quais eu estava diante.
A única em quem eu confiaria a minha vida, agora morta, uma Laura cujo corpo jazia inerte ao meu lado.
Ainda assim, foi ela que sussurrou em minha mente: “Cuida bem deste ursinho, logo vamos precisar dele”. Este agora amassado por braços tão firmes quanto frágeis de criança, ambos ainda posicionados no vão entre encosto e cadeira. Dizem que os filhos são extensões de suas progenitoras, logo entendi, eu poderia confiar no guri, também.