sábado, 25 de agosto de 2018

O tiro


Primeiro vem a surpresa, claro. Ninguém espera tomar um tiro. A dor não surge instantaneamente, vem antes uma pressão absurda e, não importa onde a bala acerte, suas pernas vão fraquejar. O barulho vem um milésimo de segundo mais tarde, ou seja, você só escuta o tiro depois que ele te acertou.
A expressão no rosto de Alex era de total incompreensão.
Era ele que tinha a arma apontada para mim.
Mas não havia sido ela a disparar.
Seus olhos se voltaram para as minhas mãos, vazias.
Mais uma vez o choro de Nícolas se fez trilha sonora do momento.
Enquanto meu ex-melhor amigo cambaleava, retomei o menino em meus braços, checando rapidamente a possibilidade de que ele estivesse ferido também.
A princípio o moleque escapara ileso mais uma vez.
Alex foi ao chão e eu pude ver, às suas costas, quem havia disparado.
Um homem calvo, cara fechada, o 38 cano longo agora apontado pra mim.
- Estou preso, delegado?
Ele não sorriu.
Baixei os olhos e vi que a bala acertou em cheio a coluna de Alex. Se sobrevivesse (e isso era bem pouco provável), jamais ficaria em pé novamente.
- Vai, tenta pegar a arma - disse o careca.
Eu não tava olhando pra arma, a ideia nem tinha passado pela minha cabeça. O menino no meu colo, impedia qualquer intenção de movimento. Estava rendido.
- Muito bem, qual é próximo passo? - Perguntei.
- O quanto você sabe? - Ele devolveu.
- Acho que o suficiente pra me encrencar. - Mentir era desnecessário. - Tem como o guri sair dessa, ao menos?
Ele não respondeu, mas a minha sinceridade fez com que relaxasse. O 38 apontava pro chão agora.
- Esse filho da puta aí fodeu com tudo, sabia?
- Sim, eu sei.
- Tava tudo certinho, todo mundo tava ganhando alguma coisa, mas o olho cresceu.
- Acho que eu ajudei um pouquinho a foder com a vida dele. O guri é meu.
Eu esperava uma gargalhada, mas ele cagou pro que eu falei. Meu cérebro estava tão cansado que eu nem cogitava um plano, torcia por um pouco de sorte. Ou de piedade.
No chão, um gemido quase inaudível revelou que Alex ainda se agarrava à vida.
O delegado ainda me olhava, pensando no que fazer comigo e com o menino.
- Quanto vale a tua vida?
- Minha vida não vale nada. A do guri, meio milhão se o pai dele se for. Mas é dinheiro a longo prazo, não tem valor pra ti agora.
- Esse moleque é neto do Lauro, né?
- É sim.
Tanto tempo de conversa dava a entender que havia uma chance, ainda que remota, de negociação.
- O velho Lauro tem muita grana ainda. E agora nenhum herdeiro, além do cu cagado aí?
- Eu não sou parente.
- Talvez o moleque valha o investimento.
Respirei fundo e um todas as emoções reivindicaram espaço dentro de mim. O fato de ser neto de Lauro e a apólice do seguro davam uma chance de que meu filho vivesse. Mas a que preço? Nas mãos de um bandido travestido de policial? Por outro lado, eu nada mais tinha a oferecer. Estava desarmado, cansado, totalmente em desvantagem naquela situação.
- Me passa o garoto.
Hesitei.
- Vamos, me dá o guri.
- Me dá tua palavra de homem de que vai cuidar dele.
- Melhor morrer ouvindo uma mentira, né?
Trinquei os dentes. Os braços pesavam uma tonelada. Como que prevendo o fim trágico de tudo aquilo, Nícolas chorava mais alto. Pobre criança, eu não tinha o que fazer.
Dei um passo na direção do delegado, que avançou com a mão livre para dar colo ao seu mais novo investimento.
Foi quando o inesperado se fez presente mais uma vez.
- Tira a mão da criança, seu merda.
Alex, num esforço sobrenatural, apontava a arma na direção do delegado.

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Apostando alto

Com o berreiro de Nicolas, não consegui identificar a procedência dos tiros, só me ocorria proteger e consolar meu menino. Me arrastei até onde ele estava e cobri seu corpo, me arrastando até o matagal próximo ao banco. Tentei – mais uma vez – recompor o cenário em busca de algum sentido. Quem sabe eu subestimara Lauro, pensando que poderia escapar dele e de seus asseclas? Quem sabe Alex me seguira? Porque eu estava convencido de que os tiros tinham a ver comigo, conosco, com Laura, com o menino. Podia até jurar.
Mais tiros. Com Nicolas mais calmo, pude distinguir a origem: vinham do jardim adjacente ao asilo. Na sequência, um grito desesperado de dor.
- Filho da puta! – ouvi, sem reconhecer a voz.  
Bem, se alguém atirou e outro alguém foi baleado, então talvez o alvo não fosse eu. Pelo menos neste momento.
E agora? Devo ficar feito morto, até a poeira baixar, ou arriscar a ser visto na fuga? Porque, se vieram até aqui, sabem que ando na volta. E não vão demorar a me achar, posso apostar. E aposto em Lauro, o Cappo. Todas as fichas no vermelho, croupier. Vermelho sangue, de preferência. Um minuto, dois, três. Nada. Nenhum barulho, nenhum movimento.
Um frio bem conhecido em minha nuca percorreu-me a espinha, gelando minhas entranhas.
- Lauro? – não reconheci bem a voz, só pensava em Lauro.
Silêncio ensurdecedor.
- Não atira, porra! Pode ferir teu neto! Olha, eu tô desarmado – continuei com minha voz mais calma, jogando a arma longe.
- Me dá o Nicolas.
Agora sim, eu sabia quem era. Alex. O jogo havia virado. Todas as fichas no preto, croupier. 
- Nem fodendo. Me mata antes. – permaneci imóvel, sem olhar pra trás, o cano do 38 enfiado no meu pescoço.
- Ainda não – o tom era sarcástico, ele estava adorando aquilo. – Tenho que terminar o serviço com o Lauro antes.
- Onde? – arrisquei, só para ganhar tempo. Se Alex estava comigo, eu bem sabia onde estava o Cappo.
- Perto do asilo. Atrás do muro do pátio. Se estrebuchando, o desgraçado. 
- Então vai mata e acaba logo com essa merda.
Como resposta, um chute nas costas.
- Levanta daí, pega o menino com jeito e vai andando na direção do asilo. Uma gracinha e mato os dois. Se tu tiver muita sorte, acabo contigo e levo o guri de refém. Tu quer que teu filhinho vire presunto agora ou depois?
De novo – e sempre, desde que caíra sua máscara – aquele tom aterrador, que  não deixava dúvida sobre o futuro do meu filho.
Na praça vazia, caminhei a passos lentos, a arma agora colada nas minhas costas. Nenhum sinal de vida dentro do asilo. Desativado, Próximo ao muro, ouvi a voz de Lauro tentando articular sons, mais grunhidos do que palavras. Alex me empurrou com brutalidade.
- Olha teu sogrinho querido ali. Tá vendo o que acontece com quem atravessa de mau jeito meu caminho?
Espiei por cima do muro. Meu estômago, acostumado a tanto horror, embrulhou. Em agonia, ali jazia Lauro João Lauro Buarque Rinaldi, metade da cara virada uma massa sanguinolenta. Vermelho sangue, nenhuma ficha, nenhuma aposta mais.
- Cara, acaba com ele de uma vez – gritei – A culpa dessa cagada toda é deste puto, não é?
- Não. Deixa ele se acabar aos pouquinhos. – O uso do diminutivo tornava tudo mais macabro – Mesmo porque, Marquinho, tudo isso é culpa tua, não dele.
Alex estava agora à minha frente, bem perto. Para meu completo desespero, Nicolas se jogou nos braços dele.
- Papá, Papá – Não era comida que ele queria agora, era o pai. O único pai que conhecera.
Alex aceitou o menino. Não pude fazer nada para impedir.  
- E onde está a mãe dele, aquela vadia?
- Laura? Laura tá morta.  
- Morta? Como assim? - Alex grudou a arma em minha barriga e engatilhou.
Nada mais me importava. Só queria que tudo acabasse logo.
- Morta. Mortinha da silva.
- Então, alguém vai ter que pagar por isso. – O tom não deixava dúvidas sobre quem seria o alguém.
Um tiro, seco, embaralhou as cartas de um jogo com cada vez mais perdedores.

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Nícolas

Caprichei no tom de voz: tinha de passar alívio, confiança e, sobretudo, a determinação de quem ia, sim, mandar a localização.
- Ok, eu espero. Mas é bom ficar esperto, ainda tem muita gente minha espalhada pela cidade. Te encontrar é só uma questão de tempo – a voz de Lauro seguia ameaçadora.
Encerrei a ligação mas mantive o celular conectado por mais alguns minutos, para que o velho demorasse um pouco para entender que não ia ter porra nenhuma de localização. Porque eu não tinha uma razão sequer para acreditar na história dele. Alex, delegado, policial traidor, policiais em serviço (a mando de quem?), capangas – todos manipulados pelo Capo dei Cappi, o poderoso Lauro Buarque. Até mesmo Laura, a minha Laura, a mãe do meu filho, torturada e morta. Eu me negava a crer que fazia parte da quadrilha. Mas, então, que lugar seria aquele onde teríamos de passar antes de tomar o rumo da fronteira? Uma nova emboscada, onde me esperaria Lauro e a morte?
Na melhor das hipóteses, se eu aderisse, ia trabalhar pro mafioso. Mas era uma vida assim que eu queria para meu filho? Claro que não. Eu tinha chegado a um ponto de inflexão. Como nas mais banais novelas noir, minhas preferidas. Só que no meu caso não era fantasia. Era a vida. Ou a morte. Eu tinha que encontrar uma saída para nós, meu filho e eu. Longe, muito longe de tudo e de todos.
Três minutos foram o suficiente para eu me certificar de que meu distintivo e a carteira funcional estavam no bolso da calça; agarrar a mochila de Laura, quem sabe seria útil, enrolar meu filho e seu ursinho em minha jaqueta, acomodá-lo no colo e sair correndo dali. Do nada me dei conta: eu ainda não tinha visto o moleque caminhar. Estranho, mas sempre no berço ou no assento de trás do carro, como poderia?
O celular tocou. Bingo! Era Lauro. Saquei o chip e arremessei o mais longe possível, no rumo do valão imundo que margeava a ruazinha de casas miseráveis.
Agora era indispensável pensar no moleque. Parecia fazer tanto tempo que estava sem comer ou beber, nem mesmo água – será que já comia comida? Ou só tomava mamadeira?  Será que Laura tinha se lembrado de pegar o necessário para o filho? E o que seria mais urgente? Talvez comer e trocar a fralda. Será que ele ainda usava fralda? Afastei um tantinho do cós da calça. Caramba! Um fedor dantesco me disse sim, e que estava vencida há muitas horas. Pobre, como não tinha reclamado?
Mas antes eu precisava encontrar uma ruela escura que me levasse ao miolo da comunidade. Sempre existe, eu sabia de tantas rondas. E sem fazer barulho. Num canto sem iluminação de um beco deserto, agachei rente à parede, meu filho bem apertado contra o peito. Notei que o ursinho pendia dos bracinhos frouxos. Será que estava dormindo? Ou desfalecido? Ou. Parecia dormir, mas estava tão mole e pesado – um peso morto, como se diz. Não, não surta agora, Marco. Ele precisa de ti.
Inspirei profundamente, pela primeira vez aterrorizado. Medo de abrir a mochila e nada encontrar? Sim, eu tinha esse medo. Mas isso era pouco. Terror mesmo seria encostar no guri e nada encontrar também.  
Latidos de cães vadios me trouxeram de volta do inferno. Eu tinha de saber se seguiria vadiando na vida como um cão danado ou...  Lentamente, aproximei meus lábios do rosto do menino. Não fiz esforço para segurar o choro, contido há tanto tempo. E agora, mesmo dia, novamente. Tá ficando frouxo, Marquinho? - diria Alex. Não, é que a pele macia estava quentinha, nem muito nem pouco. Acho que é assim que deve ser, pensei bobamente. Está vivo. E parece não ter febre.
As lágrimas rolaram sobre a bochecha e ele abriu os olhos . Não tinha observado antes: eram   escuros, como os de Laura. E levemente amendoados.
- Mamá, mamá.
Mamãe, mamãe. Voltou-me a ideia de uma Laura desconhecida, bandida. Tinha planejado me usar e acabar comigo depois. Depois seria a vez de Alex, atraído para uma cilada como eu havia sido. Final feliz: grana no bolso, vida nova, ela e Nicolas, fora do Brasil. Ou com o pai-avô mafioso junto, quem sabe?
- Mamá, mamá – de novo, agora mais forte.
Tá querendo mamadeira, não mamãe, seu idiota.
E agora? A mochila, uma esperança. Bem em cima: uma dose de leite em pó, uma mamadeira com água. Bandida ou não, ela era uma boa mãe, afinal, não tinha descuidado do filho: ali havia o suficiente para os primeiros cuidados. Além da mamadeira, fraldas, uma muda de roupa, uma coberta.
Nada de comida de verdade. Será que ele ainda não come papa? Deve ser um kit básico, sei lá. Espero ter tempo de entender tudo direitinho.
Preparei o leite seguindo o instinto: para aquele tanto de água, a dose de pó. Mamou sofregamente, deu um arrotão assustador. A golfada oceânica azedou minha camiseta. Será normal, isso? Supus que sim, ele já dormia novamente. Exaustão, tristeza, saudade. Ou barriga cheia. Ou tudo junto, quem sabe.
Te orienta, Marco, divagações agora não servem para nada. Tu não pode ficar com a criança na rua. Tu tem que achar um abrigo. Enrolei meu menino na coberta, pendurei a mochila no ombro, caminhei na direção de algo que luzia para além do beco.
Cheguei a uma pequena praça, decadente, vegetação alta. Me esgueirei como pude entre os arbustos até encontrar um banco quase escondido pela ramagem espessa. Com extrema dificuldade (me parecia ter dez dedos em cada mão), segurando a respiração (como pode um ser tão pequeno produzir algo tão catinguento?), consegui trocar a fralda de Nicolas, que seguia dormindo, agora bem agarrado a seu mascote. E agora?
Um minuto para observar o entorno. Do outro lado da praça, um prédio baixo com várias janelas e uma pequena torre. Imaginei já ter visto algo parecido. Viagem minha, não podia ser. De todo modo, decidi deitar o menino no banco e dar um pulo até lá. Queria ver de perto.
­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­Não, eu nunca tinha visto aquele prédio. O nome sobre a porta central estava ilegível. Mas eu reconhecia a arquitetura e a finalidade. Podia jurar que era um Asilo de Velhos. Um asilo, tudo o que eu precisava: asilo.

Aliviado, virei na direção do banco onde deixara Nicolas. Foi aí que ouvi os primeiros estampidos do que se tornaria um feroz tiroteio. Meu filho, caído ao lado do banco, berrava sem parar.