sábado, 14 de julho de 2018

Capítulo 20 - O Caixão de Laura

Depois de me livrar do último perseguidor, entrei em um bairro da periferia. O marcador de combustível estava na reserva. Senti odor de gasolina. Com todo aquele tiroteio era bem provável que tivessem acertado nosso tanque. Eu teria de abandonar o automóvel. Vi um terreno baldio na esquina de uma quadra com um sobrado caindo aos pedaços e mato alto em torno da construção. Decidi entrar com o carro ali mesmo. Não havia muros ou tapumes e o local parecia desabitado. Estacionei entre a vegetação alta ocultando o veículo ao lado da casa em ruínas. Por sorte, as ruas se apresentavam desertas. A possibilidade de alguém avistar nossa invasão era remota. A madrugada em silêncio nos acobertava.
Apostei que não poderiam nos encontrar de imediato naquele lugar. Eu precisava ganhar algum tempo para organizar as ideias e retomar o controle da situação. Ainda com as mãos no volante, olhei para o lado e encarei Laura. Desliguei os faróis. Tive o impulso de abraçá-la e o fiz. Enchi os olhos de lágrimas como não fazia há muito tempo. Uma bala acertara o seu rosto do lado direito, bem no malar. Parte de sua beleza se esvaíra com o ferimento fatal. O rosto cheio de sangue e a pele arroxeada identificavam sua nova condição. As pálpebras abertas e os olhos estáticos fitavam o nada. Percebi a ponta da bala como um verme de metal aparecendo de forma sutil no alto de sua testa.
Eu não podia mudar as coisas que tinham acontecido. Mas o menino Nicolas, sentado atrás do banco do carona, ainda estava vivo. Talvez existisse um pouco de esperança para eu fazer algo de bom nessa existência. Peguei o pequeno e o acolhi em meus braços. Aconcheguei-o em meu peito e segurei a sua cabeça de maneira que não olhasse para o lado. Ele não merecia conviver com a imagem da morte da mãe gravada em sua memória.
Nicolas não chorara, nem mesmo com os trancos e barrancos pelos quais havíamos passado. Sua expressão era apenas de alguém que não compreendia onde estava ou o que acontecia. Levantei o olhar depois de verificar a inexistência de ferimento no menino e constatei, pelo espelho retrovisor do carro, o reflexo de uma viatura. O veículo rodava em baixa velocidade. Gelei. Sem dúvida estavam nos procurando. Meu coração pulou intensamente. Talvez eu já não fosse mais o mesmo, um sujeito de sangue frio como sempre me considerei. Por um momento, pensei que pudessem nos encontrar. Separar-nos em definitivo. Mas passaram batido.
Concluí que mais cedo ou mais tarde nos achariam caso permanecêssemos escondidos naquele terreno decrépito. Eu precisava fugir com o menino. No entanto, não queria deixar o corpo de Laura largado daquela maneira. Não queria perdê-la uma segunda vez. A minha consciência pesava. Arrependimento e tristeza me abalavam, deixando-me prostrado. Demorei um pouco para sair daquela inércia. Quanto mais eu ficasse protelando, pior. O cheiro de morte já começava a impregnar o carro. Então, peguei da mão da minha Laura a automática que seus dedos frios ainda apertavam como garras. Duas balas seriam mais do que suficientes para Alex, se eu o encontrasse em meu caminho. Abri a porta e saí com Nicolas do caixão de sua mãe.
Meu filho ainda segurava o urso de pelúcia que apertava junto ao meu peito. Nas costas do boneco havia um zíper. Estava entreaberto. Por curiosidade, decidi puxar o cursor e encontrei um pequeno objeto enrolado em um papel.

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