sexta-feira, 27 de abril de 2018

Capítulo 9 - O tribunal

Surpreso, não consegui dizer nada, por que ele tantos anos depois? Calei.
Seguir a orientação da minha consciência naquele momento, respeitando o bom senso, a tolerância, orientações que recebi durante os anos de convivência nas operações policiais foram inúteis. Ali estava um valentão que na base da humilhação e do terror, obteve confissões de culpados e inocentes. Nenhuma inteligência estratégica resultaria em salvação naquele momento.
Eu tinha o corpo molhado e as roupas ensopadas. O tremor percorreu o meu corpo.
Reconheci no olhar de Alex o ódio, o vírus inimigo, a febre da morte.
Desprovido de qualquer bondade, a vingança nasceu do orgulho, da traição.
Somente o sangue do inimigo e o rebaixamento vil a condição de adversário traria à tona o que ocorre debaixo da vida. Dilatei os olhos, multipliquei as batidas do coração e o ritmo ofegante da respiração. Pânico.
Acuado pela tortura, flertando com o espectro da morte, rezando para acreditar que um milagre seria escapar, iniciei mais um dia de vida.
Um fio de memória. Caminhando, tentei recompor as ideias, regressara de um lugar de morte, precisei de um tempo para reconhecer o quarto onde estava.
O desconhecido e o inesperado provocavam medo.
Deitei novamente.
Apresentei-me para um tribunal, despejei todas as tolices e pecadilhos de um homem apaixonado. Não sou santo, prefiro perder o corpo e alma, mas nunca os prazeres.      
Imaginei fazer a minha confissão sem temor, pois não tinha remorso.
De modo sensível confessei que vivi duas paixões inconciliáveis, o desejo por Laura e a admiração por Alex. Excitado pelos momentos de prazer e pretensa liberdade para amar e transar com a mulher de um amigo, comprovei que a razão serve somente para obter uma absolvição inútil. Eu desejava Laura, esta afirmação da minha vontade colocou a minha alma numa indiferença perfeita quanto ao sentimento de Alex, pensava ser livre pra escolher.
Laura era irresistível, nunca consegui ser livre com ela. Toda a ausência me abalava, enfraquecia, não me deixava nenhuma espécie de desejo igual por outra mulher, só tinha em mente a felicidade que havíamos prometido ao outro.
Admito que trai a confiança de Alex que tinha por mim uma amizade sincera, confiava-me seus pensamentos mais secretos, as pequenas e grandes transgressões. O meu mau humor era suportado com um comportamento esperado, sem julgamento.
Longe da atividade policial, com tempo, o casamento e o ciúme que tinha de Laura com ele, foram determinantes para evitar encontros particulares. O sentimento não se consegue enganar.
Eu não queria ficar privado do amor de Laura, tinha dependência, necessidade de amá-la. Meu amor foi um acontecimento, enorme alegria, desejo amoroso sem medo do amor. Longos papos, compreensão absoluta, planos, projetos ousados. O amor como o nosso tinha pouco significado para as coisas práticas. Sem noção de tempo, não interessava o lugar. Ninguém por perto, nosso amor era exclusivo. Alegria, aquela que só se sente na presença da pessoa amada. Sonhamos sem saber qual o dia e a hora em que ela não voltaria mais para casa.
Um dia ela foi pra não voltar, do menino nunca mais soube.
Bateu forte a porta.
Permaneci com os olhos fechados, preso ao fantasioso julgamento.
Só precisava do sossego para continuar a imaginar a plenitude, a felicidade e as cores do amor de Laura quando isto tudo terminar.
Abri os olhos machucados lentamente.
Vi Laura.

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Capítulo 8 - O baque

O trajeto truculento e pouco amigável me deixou moído, mas ainda não tinha acabado. Fui arrastado para o que parecia ser uma grande sala. Os pés firmes que me puxavam, em contato com o assoalho provocavam um rangido tão horrível, que a impressão que eu tinha é que o chão ia ceder a qualquer momento.
Não havia móveis, a não ser uma cadeira de madeira. Fui jogado nela sem dó nem piedade, em meio a chutes e tapas na cara até que eu estivesse devidamente acomodado.
Meus braços foram amarrados e ali eu entendi que a noite ia ser longa. Eu sentia a boca seca e um hálito de sangue que me provocava náuseas. Uma goteira intermitente começou a pingar bem no meu nariz. Comemorei. Mas logo percebi que o que parecia ser a minha salvação, também seria o meu calvário.
Ouvi o som da porta batendo. Estava sozinho. Tentei mexer a cadeira, mas foi inútil. Estava presa à parede. Inclinei a cabeça para trás e fui deixando aquelas gotas invadirem a minha garganta. Foi o meu melhor momento naquelas últimas horas. Eu poderia cantar. Sorrir, até.
Ali sozinho, com o cérebro a milhão, comecei a analisar a situação, tentando trazer um pouco de lucidez praquele caos em que eu havia me metido. O que estava acontecendo ali não parecia se tratar de uma simples execução. Caso contrário, Laura e eu já estaríamos mortos há muito tempo. Alguma coisa não estava batendo. Queriam a gente vivo. Queriam ver a nossa degradação. Mas quem? Quais as motivações? Prendemos tanta gente. Com certeza éramos persona non grata em muitos lugares e nosso nome devia estar na lista de muitos. De novo lembrei da Laura desfigurada. Meus punhos se contraíram de raiva. Talvez ela nunca mais voltasse a ser aquela mulher que despertou em mim sentimentos tão controversos e intensos.
Eu desci muito baixo para que ela olhasse pra mim. Usei a sua fragilidade e insegurança a meu favor, me agarrei aos piores defeitos do Alex e fiz com que eles se sobressaíssem, manipulei os fatos e deturpei informações; fui construindo uma teia tão bem emaranhada, que quando tudo aconteceu, foi só o desfecho de um plano que para mim, parecia perfeito.
Me transportei praquela noite, quando ela chegou no meu apartamento desorientada e com as pupilas dilatadas pela raiva. Eu só tive que oferecer meu ombro e meus ouvidos. Tudo o que veio depois foi uma explosão de uma tensão que há tempos estava abafada entre nós. A gente era gasolina e fósforo. O coração acelerado, a violência daqueles beijos,  nossas roupas sendo arrancadas, a truculência do sexo, o êxtase e a maldita culpa.
Fui sendo vencido pelo cansaço. Cada pálpebra parecia pesar uma tonelada. Eu precisava dormir. Mas aquela goteira desgraçada me lembrava de que aquilo ali não era um hotel e que a intenção era esta mesma: me torturar até o limite. Salvação e calvário, pensei.
Ouvi um rangido vindo da escada. Os passos eram lentos e o som vinha num crescente até que a porta se abriu.
- E aí, Marquinhos? Tá confortável aí?
Nem nos meus piores pesadelos eu poderia imaginar que o responsável por aquilo tudo era ele. Eu ainda nem tinha me refeito do baque de saber que meu melhor amigo e parceiro tinha sido executado. Desde o momento em que recebi aquele telefonema desesperado da Laura, estava usando tudo o que eu tinha aprendido na polícia para juntar as peças deste quebra-cabeças e de repente, a resposta estava ali, bem na minha frente, tão clara quanto água.

- Alex, seu filho da puta!

Capítulo 7 - Reconhecimento

Num reflexo, meu rosto se virou na direção dela e a imagem do recente pesadelo, seu sangue e desespero, unidos aos hematomas e amarras da foto enviada por mensagem, num instante materializaram-se ali. Na (des)figura não sonhada nem digitalizada, mas real, de uma Laura de então que muito pouco tinha da Laura de antes.
Da LaurAlex, como era conhecida pelos colegas, a dupla mais ironicamente invejada, os namorados modelo que por detalhe não se fundiam num só. Ela odiava o apelido: “Eu sou eu, ele é ele” repetia vigorosamente. Eu também passei a odiar, com o tempo. Ela é ela, ela é Laura, nossa, minha Laura. Esbravejava, em pensamento. Mas no dia-a-dia, eu bem que tirava proveito daquela união. Onde antes éramos eu e Alex, Laura foi incluída, e o sentimento de irmandade que nutria por meu amigo foi muito rapidamente transmitido a ela, também. E transformou-se. De tanto que o meu amigo ensinou a mim, foi a destreza que usei para prestar atenção em seus movimentos e acompanhar olhares, deleitando-me aos mínimos vacilos. Alguns segundos de distração, minutos de ausência, aproveitados para reparar e decorar os traços do rosto e delineação do corpo de Laura.        
Estes que não tive nem tempo de buscá-los, por debaixo das manchas vermelho arroxeadas. Meu olhar foi desviado por um chute em cheio no queixo.
- Tá olhando o que, Marquinho?
Opa, essa voz eu também conhecia. O golpe não me deixou reconhecer de onde. Desorientado, vi estrelas, as do céu mesmo, tantas que denunciavam a distância que havíamos tomado do centro e toda a poluição que as esconde. Imediatamente comecei a ser arrastado, conseguindo vislumbrar o que deviam ser dois carros parados, um deles provavelmente o que me trouxera, muitas árvores, e pelos menos três pessoas encapuzadas, mais a que me puxava pelos braços. Seis, trabalho em dupla, um carro pra cada uma. Clássico. O raciocínio, porém, veio depois, Alex ficaria orgulhoso.
No momento só conseguia pensar na brita que arranhava as minhas costas e entrava pela minha calça, logo antes de sentir um puxão pra cima e em seguida tábuas de madeira contra a lombar. A hérnia gritou. Lá se vão seis meses de fisioterapia. Dois lances pequenos de escada depois, voltei a ser puxado na horizontal. Ufa. Senti dois raspões quase concomitantes nos ombros, me encolhendo em reflexo. Uma porta, e das grandes, de uma casa no meio do nada.

Capítulo 6 - Encontro


Ainda recobrando os sentidos, e com a cabeça coberta por um saco, ficou inevitável: joguei a atenção para o que podia ouvir. E as vibrações que insistiam em bater nas paredes dos meus ouvidos traziam as ondas sonoras de uma rádio local, tocando justamente uma música que eu odiava e que o Alex sempre ouvia.
Era meio que uma lembrança, que me dizia o que eu tinha ido fazer na maldita cidade. Mas, então, começou uma música que eu gostava. Pura memória afetiva. Esqueci do Alex. Lembrei de outra coisa.
- Que bela cagada nós fizemos, hein?
- Bom, eu pensei que…
- Pensar foi tudo o que não fizemos! Marco, ouça bem!
- Com essa dor de cabeça, ouço até os passos das formigas.
- É sério, Marco. Ninguém nunca pode saber disso.
Um diálogo curto, que encerrava uma longa história. Foi assim, há uns três anos, a minha última conversa olhando nos olhos da Laura. Ela partiu da capital levando na bagagem o certificado de um curso e na memória um segredo.
O carro seguia em movimento. Eu já não sabia há quanto tempo estava rodando. Desde que tinha acordado, já tinha tocado muita música ruim, mas nenhuma vez o horário foi dito, o que só confirma o amadorismo daquela bosta de FM. E quando eu começava a tentar esquecer os problemas antigos e começava a focar novamente na minha sobrevivência, “Pronto!”, um grito e o freio de mão anunciaram que eu cheguei. A qualquer lugar.
Me tiraram do carro, ouvi uma porta de ferro abrir e senti meu corpo voar. Fui arremessado. Enquanto meu corpo voava, o saco saiu da minha cabeça. Isso foi um pouco antes da aterrissagem - feita direto com a minha cara. Caído, fui agarrado pelas mesmas mãos que me jogaram, quando ouvi aquela doce voz - que eu reconheceria até no inferno - agora estridente e apavorada.
- Solta ele, seu psicopata!

Capítulo 5 - Sem ar

Em meio aos arbustos, me sentia frágil. Eu, que sempre tive o controle da situação, estava descontrolado. Todos os batimentos por minuto. Minha respiração, trôpega, fazia meu medo ser potencializado a cada passo. Eu esqueci como ser forte. Só pensava nas minhas fraquezas. Parecia tão fácil. E foi assim que eu vacilei.
Meu olhar estava distante. Por alguns segundos, que pareceram horas, eu esqueci qualquer regra que aprendi nos manuais da corporação. Aquela motoca vermelha me fez pensar na minha infância. Brincar de polícia e ladrão parecia ser mais fácil do que viver na espreita do perigo. Nunca quis ser mocinho. Levei isso à risca quando peguei meu distintivo. Eu jogava com as armas que tinha. E tinha poucas. O tiro sempre tinha de ser certeiro. Até a maldita ligação da Laura.
Com a arma em punho, minha mente estava fora do ar. Eu tentava olhar para os lados, mas meu corpo não respondia. O foco sempre voltava para a motoca vermelha. Não acreditava naquilo que via. Justo ela? O presente que dei para Laura quando o filho nasceu. Quando ele nasceu, não tive coragem de visitá-los. Mandei a tal motoca com uma dedicatória copiada da internet. Nunca fui bom com as palavras. Queria ser apenas ruim nas minhas atitudes.
Ainda não entendia os motivos daquela sucessão de acontecimentos. A folha amassada, com toda a trajetória refeita desde a ligação, estava no bolso da calça. Pensei em consultá-la como se fosse uma solução. Desisti. Seria burrice. Mais uma, entre tantas, desde quando conheci Laura. De pronto, ouvi um barulho. Quase que um estrondo. Parecia algo próximo, logo em frente. Errado. Muito errado. Era atrás. Pouco atrás. Até hoje não consigo descrever o que aconteceu. A visão anuviou. As nuvens escureceram. Eu senti o sangue correr pelo meu rosto. Gosto amargo na boca.
Caí. Lembro disso. A queda foi sofrida. Aguda, demorada, eterna. Meu corpo pesou. Ali, apaguei. Simplesmente, a vida ficou pequena. Um fiapo de esperança no peito. Não lembro mais disso. Ou não quero lembrar. Acho que senti, inconscientemente, a morte batendo na porta. Silêncio. Muito silêncio. Uma, duas, três badaladas. Um sino, ao longe, me acordou dentro daquele carro. Aliás, será que era um carro? Estava com as mãos amarradas e vendado. Minha cabeça estava totalmente imersa em um saco. Tantos anos de vida para isso? Terminar em um saco de estopa? Precisava, definitivamente, de ar.
Quando acordei, só enxergava aquilo que não costuma se enxergar. Escuridão em meio à solidão. Cadê a Laura? Cadê o guri? Cadê eu? A cabeça latejava assim como a queda. Aguda, demorada, eterna. Minha respiração estava frágil. Minha vida estava frágil. Não ganhei nada. Só perdi. Perdi Laura. Perdi Alex. Perdi o guri. Depois de tanto tentar me encontrar, também me perdi. Respirei fundo. O poço não pode ser tão fundo assim.

Capítulo 4 - Hora de usar a cabeça, Marco.

Quanto tempo fiquei ali, congelado, sem querer entender a estranha posição da cabeça tombada para o lado, o rosto deformado de Laura? Uma eternidade naqueles segundos, e o pesadelo voltando: sangue, Laura e o bebê, olhar vidrado em mim. E o remorso crescendo: Alex, Laura, e eu. E o bebê.

Quando enfim o sinal de emergência interior me tirou do transe, só conseguia ouvir a voz do Alex dos velhos tempos: “Pensa, Marco, respira fundo, raciocina, não te afoba, cara”.

Tínhamos feito uma parceria tão improvável quanto bem-sucedida: eu genioso, impulsivo; Alex tranquilo, cerebral. Meio estranho, até, me ocorreu naquele momento em que eu olhava sem ver a chuva batendo na vitrine da padaria.  Como meu amigo podia ser a um só tempo tão sensível e tão calculista?

Mas o momento não é para novas charadas, pensei. Já basta o que eu tenho pela frente. E sem esquecer que afoiteza pode significar um tiro no pé. Ou coisa pior. Era isso: hora de usar a cabeça. Te devo mais essa, Alex.

Aumentei a foto do celular e busquei algum indício que pudesse identificar o local. Nada. Na imagem, só o suficiente para ver as amarras e os hematomas. O suficiente para chocar.

Senti o estômago embrulhado de novo. Tão linda, tão amada, nossa Laura.

Fui ao balcão pedir mais um café e uma folha qualquer onde pudesse rabiscar. Droga de lei que proíbe fumar em lugares fechados, café sem cigarro não é a mesma coisa, pensei, catando nos bolsos algo que escrevesse. Alex certamente teria uma caderneta decente para me alcançar, mas vai no saco de papel, mesmo.

Percorrendo mentalmente o roteiro desde o toque do celular na madrugada, fui anotando as variáveis importantes. Minha experiência me ensinou que é preciso isolar cada uma e depois tentar reuni-las num todo buscando um sentido.

A voz de Laura, o choro. “Mataram ele, uma cilada, armaram pra cima dele”. Quem? Como? Onde? Por quê?  Desprezei o “mataram”: nada a fazer, agora, com o morto. O Como? também não interessava no momento, ainda que “cilada” e “aprontaram” pudessem dizer algo mais adiante. A importância da relação Onde-mataram-ele? se deslocara, depois da foto maldita, para Onde-está-Laura-agora? Essa era a urgência crucial, que vinha casada com Quem e Por quê, agora em relação aos dois fatos: a morte e a tortura. Nem me passava pela cabeça que estas duas últimas questões pudessem comportar mais de uma resposta. Desenhei um ponto de interrogação ao lado de cada um destaque. Grande. Mas eu já tinha uma primeira decisão: teria de começar de trás pra frente, pela localização da Laura.

Voltei às variáveis. “Pode vir agora?” Urgência na voz, um pedido de socorro. Por que não ela tinha chamado seus colegas policiais? Talvez a resposta tivesse a ver com “Aprontaram pra ele.” Segunda decisão: eu não poderia confiar em ninguém, não iria à delegacia.

“Tô segura agora”. Por que o “agora”? Antes não estava? Ou pressentia que o perigo morava no depois? Bem, a foto terrível e a mensagem enigmática eram um princípio de resposta.

Reli as anotações, procurando ligar os pontos e visualizar algum sentido. No papel, poucos dados e muitas interrogações. O que tinha acontecido entre o telefonema da madrugada e a chegada da foto? Onde seria o cativeiro de Laura? O que teria acontecido ao menino?  

Bem, a única referência que eu tinha era aquela do mapa: o endereço da casa de Laura. Teria de começar por ela. Ainda que eu duvidasse de que encontraria Laura ou seu torturador lá, a casa era o local onde eu poderia encontrar alguma pista.  

Cafés pagos, alcancei a rua e logo meu carro, estacionado frente ao hotel. Mostrei o endereço ao porteiro que fumava em frente à porta, talvez tivesse algo a dizer para além do aplicativo de mapas. Tinha: ficava pro lado do rio, na zona sul, em uma área de loteamentos novos. “Uns vinte minutos de carro”, informou.

Rodando pela cidade é que percebi que me enganara, ela não era mais a mesma. Para o sul, ruas recém abertas, condomínios novos. Quantos anos fazia mesmo que eu tinha ido para a Academia? Perto de vinte. Minha mãe morrera um pouco antes, meu pai e eu éramos estranhos, meu único irmão logo se mudaria para o nordeste, nenhum amor choraria por mim na rodoviária. Ao entrar no ônibus para a capital, eu levava uma mochila e duas certezas: seria um policial e, com sorte, nunca mais pisaria naquela merda de cidade.

E agora, o azar. Meu ex-melhor-amigo morto, minha ex... ex o quê, mesmo? Deixa pra lá, não é hora de lembrar os rolos do passado. O caso agora é outro: Laura em perigo, se não já morta, o menino sabe-se onde. Eu queria muito saber do menino. Mesmo sem ter nunca visto sequer uma foto do guri, me pegava pensando  nele com alguma frequência. E isso desde que eu soube da gravidez de Laura, ainda antes de tudo vir à tona. Como seria ele? Parecido com a mãe?

Meu devaneio foi interrompido pela indicação do aplicativo: estava próximo à Travessa dos Ipês. Cruzei o portal sem guarita de um loteamento arborizado. À primeira vista, poucas casas concluídas. Não havia luxo ali, me pareceu. Lotes de mesmo tamanho, casas iguais: cercas brancas, pequeno jardim, cenário perfeito para aquele casal que poderia estrelar uma comédia romântica. Só que não mais.

Quase ninguém na rua. Era aquela hora da manhã em que os madrugadores já saíram em bando e o movimento de volta da escola ainda não tinha começado. Melhor assim.

Estacionei na rua de destino, a uma quadra do número 187. Caminhei rumo à frente da casa observando disfarçadamente o entorno. Estava à paisana – evidente – e ninguém me conhecia ali. Ponto pra mim. Passei o portão, dei a volta na quadra. Na rua de trás, o terreno que dava fundos ao de Laura se escondia dos passantes por um tapume precário.

Foi fácil encontrar uma tábua solta. Fiquei um tempo agachado, um olho na rua, outro espiando pela fresta: nas redondezas, ninguém; atrás do tapume, um mato alto. Forçando a abertura, passei espremido entre as tábuas. Maldita cerveja.

Eu já não era mais o homem complicado e cheio de dúvidas, era o policial. A pistola na cintura ao alcance da mão, rastejei até o limite do terreno da casa de Laura.

Adrenalina subindo, Alex comigo: “Respira, cara, observa, vai, Marco”.

Nenhum sinal de vida, nenhum ruído. No quintal, indícios da vida doméstica: roupas no varal, um pequeno carrossel, uma motoca vermelha.

Me pareceu barbada transpor o muro do fundo e me esgueirar rente aos arbustos da divisa lateral. Depois me ocorreria que foi essa facilidade que me fez baixar a guarda.

Capítulo 3 - Na cidade

Cheguei um pouco antes do amanhecer. A cidade estava do mesmo jeito que eu lembrava. Depois de um tempo, tudo que você quer é nunca mais voltar pro lugar onde nasceu. Sim, ironia pura, a cidade que Alex e Laura escolheram para ficar longe de mim era minha cidade natal.
Estacionei o carro em frente a um hotel vagabundo no centro. Pensei até em alugar um quarto, mas a urgência da situação e a falta de grana me fizeram desistir. Peguei o celular e digitei uma mensagem, avisando Laura que havia chegado. Aguardei alguns minutos, a resposta não veio e eu botei na cabeça que ela tinha conseguido dormir. Melhor não incomodar. Tirei uma camiseta da mala, improvisei um travesseiro e deitei o banco até o limite. Uma horinha de sono não faria mal. E ele veio rápido, carregando junto um sonho que começou bem: eu e o Alex numa mesa de bar rindo de alguma coisa. Estávamos jovens novamente, como no tempo da academia. A cerveja rolava solta, trazida por belas e sorridentes garotas. Até que Laura apareceu de repente, com o rosto todo sujo de sangue e chorando. Carregava nos braços um bebê. Ele chorava também, mas não movia a boca e seus olhos estavam vidrados em mim. Eu não conseguia respirar e tentava desesperadamente fugir daquele lugar, mas meu corpo não respondia. Tentei gritar. Em vão.
Acordei num salto.
Já era dia.
Lá fora a neblina tinha dado espaço a uma chuva fina.
As pessoas já se movimentavam apressadas em direção ao trabalho, esbarrando seus guarda-chuvas ao se cruzarem.
Esfreguei os olhos e consultei o celular.
Laura ainda não tinha visualizado a minha mensagem. Descansa, garota, teu dia vai ser horrível, melhor encurtá-lo o máximo possível.
Saí do carro em direção a uma padaria. Um café e um pãozinho com manteiga cairiam bem.
De estômago forrado, voltei a tentar contato com Laura, mas a situação permanecia a mesma.
Resolvi ligar.
O telefone chamou, incansável, até cair.
Estava no silencioso, só podia.
Mas algo dentro de mim me fez insistir.
Novamente chamou até cair.
Meu estômago embrulhou.
Bobagem, pensei. Ela está bem. Mas, por algum motivo a imagem do sonho voltou à minha cabeça. Laura e o bebê chorando. O sangue. Busquei conforto num cigarro. Já ia acendê-lo quando o celular vibrou.
Era uma mensagem dela.

Precisei de alguns segundos pra acreditar no que estava vendo. Era uma foto. Laura estava amarrada à uma cadeira, desacordada. O rosto cheio de hematomas. Acompanhava a foto uma mensagem: “Volta pra casa, idiota. Aqui não tem nada pra você!”.

Capítulo 2 - Um café e um cigarro

Um atendente gordo e com cara de poucos amigos me serviu o café. Não quis papo, eu também não insisti. Troquei a xícara por um copo descartável e fui beber no estacionamento, acompanhado de um cigarro.
Fazia frio. Ajustei a gola do casaco e busquei uma área protegida.
Alex estava morto.
Parecia mentira ou, no máximo, um sonho ruim.
O cara foi o primeiro amigo que fiz na academia de polícia, o único que não dava bola pro meu mau humor e ainda se divertia com isso. Era impossível contar a quantidade de vezes que um carregou o outro depois das bebedeiras de fim de semana, também era impossível de calcular as vezes que um cobriu o outro numa briga de bar ou numa abordagem policial. Se havia um cara em quem eu confiava era Alex. Sei que ele também sentia o mesmo. Talvez por isso a porrada por causa da Laura tenha sido tão forte.
Laura entrou em nossas vidas como um furacão. Transferida de outra cidade, começou a fazer parte de nossa equipe pouco depois que nos formamos e fincamos terreno em uma delegacia de homicídios da capital. Ainda lembro do delegado chamando o pessoal pra anunciar que o novo recruta era uma mulher. E bonita. Os ânimos exaltados com a perspectiva de uma alma feminina no nosso ambiente de trabalho foram silenciados com um dedo em riste: “Que ninguém diga uma gracinha pra ela. É filha de um grande amigo meu e minha protegida. Certo?”. Óbvio que isso só serviu pra deixar o pessoal ainda mais excitado e louco pra conhecer a garota.
Laura começou a trabalhar numa segunda. Entrou na delegacia de cabelo preso e óculos escuros. A cara de poucos amigos não escondia o nervosismo que as mãos trêmulas revelavam.
Apresentações feitas, ela foi designada para trabalhar com Alex, no meu lugar. Eu faria dupla com o Gonçalves. Que merda, justo o Gonçalves! Um cara que era alvo da corregedoria vez por outra por abuso de autoridade. O delegado justificou dizendo que confiava em mim pra colocar o cara no rumo certo.
Azar de uns, sorte de outros.
Alex não perdeu tempo e, menos de um mês depois, já engatou o namoro com a Laura. A real é que os dois combinavam como dois protagonistas de uma comédia romântica americana.
Meu amigo não me excluiu por culpa do namoro. Pelo contrário, puxou Laura pra dentro da nossa rotina. E ela se adaptou rápido à nossa maneira de ver (e viver) a coisa toda.
Até eu cruzar uma linha que não podia.
Até eu fazer a maior de todas as cagadas.

Terminei o cigarro e o café. Balancei a cabeça pra que a nostalgia e a culpa dessem um tempo. Ainda tinha um caminho pela frente antes de reencontrar Laura e fazer alguma coisa pela memória do Alex.

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Capítulo 1 - O telefonema

Enquanto dirigia o carro sob a forte neblina da madrugada, repassei o que havia acontecido.
O telefone tocou logo depois das duas. Normalmente deixo ele desligado, mas depois da quantidade de cerveja que tomei, o telefone era a menor das minhas preocupações. Os toques foram ficando mais altos na medida que eu trocava uma confusão de imagens pela sensação desconfortável de acordar sobre o braço e ainda vestido. Pisquei os olhos e tateei sobre o criado-mudo, derrubando tudo que tinha ali em cima. O celular foi a última coisa que encontrei. Atendi num rosnado.
- Quem é?
Silêncio.
Repeti:
- Quem é?
- Marco? – Voz de mulher.
- Sou eu. Quem tá falando?
- É a Laura.
Minha história com a Laura é tão enrolada que é até difícil de explicar. Por enquanto basta dizer que é algo de que me envergonho muito.
- Oi – não sabia o que falar. Tudo bem?
- Mataram ele, Marco. – Ela estava chorando.
“Ele” era o Alex. Meu melhor amigo no passado e pivô de toda merda com a Laura. Eles tinham casado e, depois do rolo, foram morar numa cidade do interior, 300 quilômetros da capital.
- E você, tá bem?
- Tô segura agora.
- Como aconteceu, Laura?
Ela respirou fundo do outro lado da linha.
- Foi uma cilada, armaram pra cima dele.
No passado tinham armado pra cima de mim também. Gente da delegacia. Fizeram de tudo pra que eu perdesse o distintivo e saísse da corporação sem honra alguma.
- Gente daí? – quis saber.
- Não tenho certeza, Marco. Tem como você vir pra cá?
- Claro. Onde te encontro?
- Te mando a localização por mensagem. Pode vir agora?
- Posso. E o guri? – Eles tinham um filho de poucos anos, dois eu acho.
- Tá comigo.
- Ok. Antes de amanhecer eu chego.
- Obrigada – ela disse, desligando.
Minutos depois recebi o mapa por mensagem.
Tomei um banho gelado, joguei meia dúzia de roupas numa mala e juntei os trocados que me restavam pra gasolina.
Estava no meio do caminho quando a neblina apertou.
Não ia ser fácil reencontrar a Laura. Havia ainda cicatrizes profundas em nós dois. Ela devia tá muito desesperada pra ter me ligado. Mas ajudá-la era o mínimo que eu podia fazer. Tinha essa dívida com Alex, pelas merdas do passado.
Faltavam menos de duas horas pra chegar lá.
Uns minutos pro o café não fariam diferença.
Cidade Cinza é um projeto de escrita colaborativa.
São 26 capítulos semanais, exclusivamente criados para serem lidos no meio virtual. O pontapé inicial foi dado por mim, isso quer dizer que os três primeiros capítulos ficaram sob minha responsabilidade, os restantes estão sendo escritos por convidados, que terão o desafio de manter a narrativa em andamento até um final totalmente imprevisível.

Conto, claro, com a sua leitura, com os seus comentários, o seu like e, se possível, com o compartilhamento dessa iniciativa.
Pronto?
Vamos nessa!