domingo, 2 de setembro de 2018

Capítulo 25 - O fim

Tudo termina.
Por mais sofrimento que você carregue em suas costas, por mais que a exaustão tome conta do que resta do seu corpo, uma hora tudo vai terminar.
Eu sei que parece a contracapa de um livro de autoajuda, mas é a mais pura verdade.
O espaço de tempo compreendido entre o telefonema de Laura e o ultimato de Alex nem era tão grande assim, mas tinha o peso de duas vidas inteiras.
Eu já não conseguia pensar racionalmente em nada, meus instintos é que me mantinham na vertical com meus olhos abertos.
Se não fosse pelo guri, eu já teria apressado um final.
Um guri que eu nem conhecia.
Que virou meu filho um segundo atrás.
E que importava.
Mas como um fodido que nem eu iria cuidar dessa criança sem a mãe? Um moleque que não anda e mal fala?
Pior: carrega consigo um cheque pré-datado de meio milhão.
Alex fez o certo, sabia que não ia durar muito mais. Juntou as forças que tinha num último movimento e me deu a chance que eu precisava. O mesmo Alex que queria foder comigo, diretamente responsável pelo encurtamento da vida de nossa amada, redimiu-se. Pelo menos eu vou morrer acreditando que havia algo de nobre na sua última ação.
O delegado respondeu a bravata com mais dois tiros, dessa vez entre os olhos do meu ex-melhor amigo.
Deixei que o corpo de Nicolas escorregasse do meus braços, a seguir aproveitei a curta distância que separava eu e o careca e me joguei com tudo em sua direção.
A surpresa foi minha aliada e o desgraçado não teve tempo de disparar novamente. Meu corpo cobriu o dele e, com as forças que me restavam, desferi uma infinidade de socos até a cabeça do homem virar uma massa disforme e eu ter certeza de que dali ele não levantaria.
Precisei de bem mais de um minuto pra recuperar o fôlego e minha audição voltar. A pulsação nos tímpanos tinha me impedido de ouvir o choro do meu filho. Tomei-o em meus braços mais uma vez, sujando toda a roupinha dele com o sangue do último filho da puta a lhe ameaçar.
Cantarolei uma canção qualquer enquanto fuçava nos bolsos do casaco do delegado. Carteira e chave do carro bastavam. Me despedi de Alex com um último olhar. Saí dali o mais rápido possível, certo que o tiroteio não ia ficar por isso mesmo, ainda mais com uma autoridade morta.
Precisava desaparecer daquela merda de cidade.
Apontei o controle pra todos os carros estacionados ao redor, já ia desistir quando um deles respondeu com um som agudo e um piscar de luzes. Acomodei Nicolas no banco de trás da melhor forma possível na ausência de uma cadeirinha. Vasculhei o porta-luvas e o porta-malas na busca por alguma ferramenta que me permitisse trocar as placas com outro veículo. A sorte, por enquanto, ainda me acompanhava: nenhum sinal de sirenes no perímetro. Consegui meu propósito e o carro do delegado tinha agora uma nova identidade. Chequei novamente o guri e saí em disparada.
Algumas quadras a seguir e o alvoroço de viaturas finalmente deu o ar da graça. Alguém encontrou os corpos e resolveu chamar a polícia.
Busquei as ruas menos movimentadas e pisei fundo. Precisava chegar o mais rápido possível na rodovia e abandonar o perímetro urbano.
Laura, Lauro, Alex, o delegado. Uma trilha de cadáveres que iria chegar em mim um dia. Não tinha como passar adiante essa conta.
Parei numa farmácia e fiz um rancho, analgésicos pra mim, fraldas e comida pro meu filho. Pra minha sorte, a carteira do delegado estava recheada. Uma loja pra roupas novas e um posto de gasolina pra encher o tanque.
Estrada livre.
Talvez o delegado não fosse uma figura tão importante assim pra uma busca prioritária.
Sorte minha.
Fronteira a 200 km avisou a placa.
Preciso ficar acordado até lá.
Um olhar pro meu filho no banco de trás.
- Você vai dar trabalho, moleque.
Em resposta um sorriso, o primeiro que mereci.
O estopim pra que meus olhos se enchessem de lágrimas.
A cidade cinza ficava para trás.
Um recomeço, uma chance de deixar de ser um merda, abria os braços pra mim.

Acelerei.

sábado, 25 de agosto de 2018

O tiro


Primeiro vem a surpresa, claro. Ninguém espera tomar um tiro. A dor não surge instantaneamente, vem antes uma pressão absurda e, não importa onde a bala acerte, suas pernas vão fraquejar. O barulho vem um milésimo de segundo mais tarde, ou seja, você só escuta o tiro depois que ele te acertou.
A expressão no rosto de Alex era de total incompreensão.
Era ele que tinha a arma apontada para mim.
Mas não havia sido ela a disparar.
Seus olhos se voltaram para as minhas mãos, vazias.
Mais uma vez o choro de Nícolas se fez trilha sonora do momento.
Enquanto meu ex-melhor amigo cambaleava, retomei o menino em meus braços, checando rapidamente a possibilidade de que ele estivesse ferido também.
A princípio o moleque escapara ileso mais uma vez.
Alex foi ao chão e eu pude ver, às suas costas, quem havia disparado.
Um homem calvo, cara fechada, o 38 cano longo agora apontado pra mim.
- Estou preso, delegado?
Ele não sorriu.
Baixei os olhos e vi que a bala acertou em cheio a coluna de Alex. Se sobrevivesse (e isso era bem pouco provável), jamais ficaria em pé novamente.
- Vai, tenta pegar a arma - disse o careca.
Eu não tava olhando pra arma, a ideia nem tinha passado pela minha cabeça. O menino no meu colo, impedia qualquer intenção de movimento. Estava rendido.
- Muito bem, qual é próximo passo? - Perguntei.
- O quanto você sabe? - Ele devolveu.
- Acho que o suficiente pra me encrencar. - Mentir era desnecessário. - Tem como o guri sair dessa, ao menos?
Ele não respondeu, mas a minha sinceridade fez com que relaxasse. O 38 apontava pro chão agora.
- Esse filho da puta aí fodeu com tudo, sabia?
- Sim, eu sei.
- Tava tudo certinho, todo mundo tava ganhando alguma coisa, mas o olho cresceu.
- Acho que eu ajudei um pouquinho a foder com a vida dele. O guri é meu.
Eu esperava uma gargalhada, mas ele cagou pro que eu falei. Meu cérebro estava tão cansado que eu nem cogitava um plano, torcia por um pouco de sorte. Ou de piedade.
No chão, um gemido quase inaudível revelou que Alex ainda se agarrava à vida.
O delegado ainda me olhava, pensando no que fazer comigo e com o menino.
- Quanto vale a tua vida?
- Minha vida não vale nada. A do guri, meio milhão se o pai dele se for. Mas é dinheiro a longo prazo, não tem valor pra ti agora.
- Esse moleque é neto do Lauro, né?
- É sim.
Tanto tempo de conversa dava a entender que havia uma chance, ainda que remota, de negociação.
- O velho Lauro tem muita grana ainda. E agora nenhum herdeiro, além do cu cagado aí?
- Eu não sou parente.
- Talvez o moleque valha o investimento.
Respirei fundo e um todas as emoções reivindicaram espaço dentro de mim. O fato de ser neto de Lauro e a apólice do seguro davam uma chance de que meu filho vivesse. Mas a que preço? Nas mãos de um bandido travestido de policial? Por outro lado, eu nada mais tinha a oferecer. Estava desarmado, cansado, totalmente em desvantagem naquela situação.
- Me passa o garoto.
Hesitei.
- Vamos, me dá o guri.
- Me dá tua palavra de homem de que vai cuidar dele.
- Melhor morrer ouvindo uma mentira, né?
Trinquei os dentes. Os braços pesavam uma tonelada. Como que prevendo o fim trágico de tudo aquilo, Nícolas chorava mais alto. Pobre criança, eu não tinha o que fazer.
Dei um passo na direção do delegado, que avançou com a mão livre para dar colo ao seu mais novo investimento.
Foi quando o inesperado se fez presente mais uma vez.
- Tira a mão da criança, seu merda.
Alex, num esforço sobrenatural, apontava a arma na direção do delegado.

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Apostando alto

Com o berreiro de Nicolas, não consegui identificar a procedência dos tiros, só me ocorria proteger e consolar meu menino. Me arrastei até onde ele estava e cobri seu corpo, me arrastando até o matagal próximo ao banco. Tentei – mais uma vez – recompor o cenário em busca de algum sentido. Quem sabe eu subestimara Lauro, pensando que poderia escapar dele e de seus asseclas? Quem sabe Alex me seguira? Porque eu estava convencido de que os tiros tinham a ver comigo, conosco, com Laura, com o menino. Podia até jurar.
Mais tiros. Com Nicolas mais calmo, pude distinguir a origem: vinham do jardim adjacente ao asilo. Na sequência, um grito desesperado de dor.
- Filho da puta! – ouvi, sem reconhecer a voz.  
Bem, se alguém atirou e outro alguém foi baleado, então talvez o alvo não fosse eu. Pelo menos neste momento.
E agora? Devo ficar feito morto, até a poeira baixar, ou arriscar a ser visto na fuga? Porque, se vieram até aqui, sabem que ando na volta. E não vão demorar a me achar, posso apostar. E aposto em Lauro, o Cappo. Todas as fichas no vermelho, croupier. Vermelho sangue, de preferência. Um minuto, dois, três. Nada. Nenhum barulho, nenhum movimento.
Um frio bem conhecido em minha nuca percorreu-me a espinha, gelando minhas entranhas.
- Lauro? – não reconheci bem a voz, só pensava em Lauro.
Silêncio ensurdecedor.
- Não atira, porra! Pode ferir teu neto! Olha, eu tô desarmado – continuei com minha voz mais calma, jogando a arma longe.
- Me dá o Nicolas.
Agora sim, eu sabia quem era. Alex. O jogo havia virado. Todas as fichas no preto, croupier. 
- Nem fodendo. Me mata antes. – permaneci imóvel, sem olhar pra trás, o cano do 38 enfiado no meu pescoço.
- Ainda não – o tom era sarcástico, ele estava adorando aquilo. – Tenho que terminar o serviço com o Lauro antes.
- Onde? – arrisquei, só para ganhar tempo. Se Alex estava comigo, eu bem sabia onde estava o Cappo.
- Perto do asilo. Atrás do muro do pátio. Se estrebuchando, o desgraçado. 
- Então vai mata e acaba logo com essa merda.
Como resposta, um chute nas costas.
- Levanta daí, pega o menino com jeito e vai andando na direção do asilo. Uma gracinha e mato os dois. Se tu tiver muita sorte, acabo contigo e levo o guri de refém. Tu quer que teu filhinho vire presunto agora ou depois?
De novo – e sempre, desde que caíra sua máscara – aquele tom aterrador, que  não deixava dúvida sobre o futuro do meu filho.
Na praça vazia, caminhei a passos lentos, a arma agora colada nas minhas costas. Nenhum sinal de vida dentro do asilo. Desativado, Próximo ao muro, ouvi a voz de Lauro tentando articular sons, mais grunhidos do que palavras. Alex me empurrou com brutalidade.
- Olha teu sogrinho querido ali. Tá vendo o que acontece com quem atravessa de mau jeito meu caminho?
Espiei por cima do muro. Meu estômago, acostumado a tanto horror, embrulhou. Em agonia, ali jazia Lauro João Lauro Buarque Rinaldi, metade da cara virada uma massa sanguinolenta. Vermelho sangue, nenhuma ficha, nenhuma aposta mais.
- Cara, acaba com ele de uma vez – gritei – A culpa dessa cagada toda é deste puto, não é?
- Não. Deixa ele se acabar aos pouquinhos. – O uso do diminutivo tornava tudo mais macabro – Mesmo porque, Marquinho, tudo isso é culpa tua, não dele.
Alex estava agora à minha frente, bem perto. Para meu completo desespero, Nicolas se jogou nos braços dele.
- Papá, Papá – Não era comida que ele queria agora, era o pai. O único pai que conhecera.
Alex aceitou o menino. Não pude fazer nada para impedir.  
- E onde está a mãe dele, aquela vadia?
- Laura? Laura tá morta.  
- Morta? Como assim? - Alex grudou a arma em minha barriga e engatilhou.
Nada mais me importava. Só queria que tudo acabasse logo.
- Morta. Mortinha da silva.
- Então, alguém vai ter que pagar por isso. – O tom não deixava dúvidas sobre quem seria o alguém.
Um tiro, seco, embaralhou as cartas de um jogo com cada vez mais perdedores.

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Nícolas

Caprichei no tom de voz: tinha de passar alívio, confiança e, sobretudo, a determinação de quem ia, sim, mandar a localização.
- Ok, eu espero. Mas é bom ficar esperto, ainda tem muita gente minha espalhada pela cidade. Te encontrar é só uma questão de tempo – a voz de Lauro seguia ameaçadora.
Encerrei a ligação mas mantive o celular conectado por mais alguns minutos, para que o velho demorasse um pouco para entender que não ia ter porra nenhuma de localização. Porque eu não tinha uma razão sequer para acreditar na história dele. Alex, delegado, policial traidor, policiais em serviço (a mando de quem?), capangas – todos manipulados pelo Capo dei Cappi, o poderoso Lauro Buarque. Até mesmo Laura, a minha Laura, a mãe do meu filho, torturada e morta. Eu me negava a crer que fazia parte da quadrilha. Mas, então, que lugar seria aquele onde teríamos de passar antes de tomar o rumo da fronteira? Uma nova emboscada, onde me esperaria Lauro e a morte?
Na melhor das hipóteses, se eu aderisse, ia trabalhar pro mafioso. Mas era uma vida assim que eu queria para meu filho? Claro que não. Eu tinha chegado a um ponto de inflexão. Como nas mais banais novelas noir, minhas preferidas. Só que no meu caso não era fantasia. Era a vida. Ou a morte. Eu tinha que encontrar uma saída para nós, meu filho e eu. Longe, muito longe de tudo e de todos.
Três minutos foram o suficiente para eu me certificar de que meu distintivo e a carteira funcional estavam no bolso da calça; agarrar a mochila de Laura, quem sabe seria útil, enrolar meu filho e seu ursinho em minha jaqueta, acomodá-lo no colo e sair correndo dali. Do nada me dei conta: eu ainda não tinha visto o moleque caminhar. Estranho, mas sempre no berço ou no assento de trás do carro, como poderia?
O celular tocou. Bingo! Era Lauro. Saquei o chip e arremessei o mais longe possível, no rumo do valão imundo que margeava a ruazinha de casas miseráveis.
Agora era indispensável pensar no moleque. Parecia fazer tanto tempo que estava sem comer ou beber, nem mesmo água – será que já comia comida? Ou só tomava mamadeira?  Será que Laura tinha se lembrado de pegar o necessário para o filho? E o que seria mais urgente? Talvez comer e trocar a fralda. Será que ele ainda usava fralda? Afastei um tantinho do cós da calça. Caramba! Um fedor dantesco me disse sim, e que estava vencida há muitas horas. Pobre, como não tinha reclamado?
Mas antes eu precisava encontrar uma ruela escura que me levasse ao miolo da comunidade. Sempre existe, eu sabia de tantas rondas. E sem fazer barulho. Num canto sem iluminação de um beco deserto, agachei rente à parede, meu filho bem apertado contra o peito. Notei que o ursinho pendia dos bracinhos frouxos. Será que estava dormindo? Ou desfalecido? Ou. Parecia dormir, mas estava tão mole e pesado – um peso morto, como se diz. Não, não surta agora, Marco. Ele precisa de ti.
Inspirei profundamente, pela primeira vez aterrorizado. Medo de abrir a mochila e nada encontrar? Sim, eu tinha esse medo. Mas isso era pouco. Terror mesmo seria encostar no guri e nada encontrar também.  
Latidos de cães vadios me trouxeram de volta do inferno. Eu tinha de saber se seguiria vadiando na vida como um cão danado ou...  Lentamente, aproximei meus lábios do rosto do menino. Não fiz esforço para segurar o choro, contido há tanto tempo. E agora, mesmo dia, novamente. Tá ficando frouxo, Marquinho? - diria Alex. Não, é que a pele macia estava quentinha, nem muito nem pouco. Acho que é assim que deve ser, pensei bobamente. Está vivo. E parece não ter febre.
As lágrimas rolaram sobre a bochecha e ele abriu os olhos . Não tinha observado antes: eram   escuros, como os de Laura. E levemente amendoados.
- Mamá, mamá.
Mamãe, mamãe. Voltou-me a ideia de uma Laura desconhecida, bandida. Tinha planejado me usar e acabar comigo depois. Depois seria a vez de Alex, atraído para uma cilada como eu havia sido. Final feliz: grana no bolso, vida nova, ela e Nicolas, fora do Brasil. Ou com o pai-avô mafioso junto, quem sabe?
- Mamá, mamá – de novo, agora mais forte.
Tá querendo mamadeira, não mamãe, seu idiota.
E agora? A mochila, uma esperança. Bem em cima: uma dose de leite em pó, uma mamadeira com água. Bandida ou não, ela era uma boa mãe, afinal, não tinha descuidado do filho: ali havia o suficiente para os primeiros cuidados. Além da mamadeira, fraldas, uma muda de roupa, uma coberta.
Nada de comida de verdade. Será que ele ainda não come papa? Deve ser um kit básico, sei lá. Espero ter tempo de entender tudo direitinho.
Preparei o leite seguindo o instinto: para aquele tanto de água, a dose de pó. Mamou sofregamente, deu um arrotão assustador. A golfada oceânica azedou minha camiseta. Será normal, isso? Supus que sim, ele já dormia novamente. Exaustão, tristeza, saudade. Ou barriga cheia. Ou tudo junto, quem sabe.
Te orienta, Marco, divagações agora não servem para nada. Tu não pode ficar com a criança na rua. Tu tem que achar um abrigo. Enrolei meu menino na coberta, pendurei a mochila no ombro, caminhei na direção de algo que luzia para além do beco.
Cheguei a uma pequena praça, decadente, vegetação alta. Me esgueirei como pude entre os arbustos até encontrar um banco quase escondido pela ramagem espessa. Com extrema dificuldade (me parecia ter dez dedos em cada mão), segurando a respiração (como pode um ser tão pequeno produzir algo tão catinguento?), consegui trocar a fralda de Nicolas, que seguia dormindo, agora bem agarrado a seu mascote. E agora?
Um minuto para observar o entorno. Do outro lado da praça, um prédio baixo com várias janelas e uma pequena torre. Imaginei já ter visto algo parecido. Viagem minha, não podia ser. De todo modo, decidi deitar o menino no banco e dar um pulo até lá. Queria ver de perto.
­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­Não, eu nunca tinha visto aquele prédio. O nome sobre a porta central estava ilegível. Mas eu reconhecia a arquitetura e a finalidade. Podia jurar que era um Asilo de Velhos. Um asilo, tudo o que eu precisava: asilo.

Aliviado, virei na direção do banco onde deixara Nicolas. Foi aí que ouvi os primeiros estampidos do que se tornaria um feroz tiroteio. Meu filho, caído ao lado do banco, berrava sem parar.

sábado, 28 de julho de 2018

Capítulo 21 - Fantasma

O pequeno objeto era uma caixa, dentro dela um celular. Tinha bateria e parecia ser novo e de bom funcionamento. Achei estranho. Liguei. Na agenda apenas um número salvo, sem nome do contato. Entre as mensagens recebidas, novamente o mesmo número. No corpo do texto, o pedido: “Me liga!”.
Laura havia feito questão que nós pegássemos o ursinho. Se ela estivesse aqui, é provável, então, que fizesse essa ligação. Ou não. Sei lá. Na falta de algo melhor, nunca me faltou coragem. Liguei.
- Laura? - perguntou prontamente a voz de um homem idoso.
- Quem está falando? - questionei, com medo da resposta que pudesse ouvir.
- Quem é você? Por que está com esse telefone? Como está a Laura? - desesperou-se.
- Laura me deu esse telefone. Ela confia em mim. Diga se eu posso confiar em você.
- Só Laura pode confiar em mim. Você está falando com um fantasma.
- O menino precisa de sua ajuda.
- O que aconteceu com ele? Eu juro que mato você! Com quem diabos estou falando?
- Com o pai legítimo da criança! Preciso que esse fantasma tenha nome. Agora. Se não vou desligar.
Silêncio.
- Não desliga. Porra, Laura me falou de ti. Tu estás falando com Lauro.
Naquele momento, um segundo se passou. Mas esse era só o tempo “real”, sobre o qual a limitada percepção humana se debruça. Na minha cabeça, tive horas - talvez dias - disponíveis para buscar tudo o que sabia sobre esse nome. Alex me pediu atenção a um tal Lauro Buarque. João Lauro Buarque Rinaldi era o responsável por um testamento que beneficiava o meu filho. E ele sabia de mim. Enfim, eu estava chegando perto de alguma coisa nessa história confusa.
- Fala alguma coisa, porra! Cadê a Laura? - interrompeu o silêncio.
- Tá com o Alex. Correndo perigo. - no desespero, preferi mentir.
- Filho da puta! Eu vou matar esse verme!
- Vamos matar juntos. Mas, antes, preciso de ajuda. Precisamos. Eu e o guri.
- Que história é essa? Vou mandar meus homens até aí.
Pensei bem naquele diálogo que estava tendo. Numa conta rápida, eu só conseguia pensar que esse Lauro tinha de ser um inimigo de Alex e avô do garoto. Mais do que nunca, o inimigo do meu inimigo tinha que ser o meu melhor amigo. E me restava apenas confiar naquele que estava do outro lado da linha.
- Se você está falando das duas torres gêmeas que morreram na casa da Laura mais cedo, acho que você não tem mais homens.
- Do que você tá falando?
- Mais cedo, dois homens foram à casa de Laura buscar o menino. Amarraram Laura e o delegado, mataram um policial. Eu estava lá.
- O delegado escapou, então? - perguntou, deixando claro que sabia do que se tratava a visita do B1 e do B2.
- Sim. Seus homens estão mortos. O policial também. O delegado fugiu e mandou seus homens nos perseguirem, mas não nos encontraram… ainda.
- Certo. Me diga aonde você está.
Quando me dei conta de que estava colocando a vida do meu filho nas mãos de um desconhecido que tem capangas, travei.
- Alô! Você ainda tá ouvindo?
- Sim, estou.
- Me dê um endereço, um ponto de referência.
- Não.
- Como assim?
- Preciso que você me explique o que está acontecendo.
- Não temos tempo para isso.
- Eu juro que desligo.
Mais uma vez, silêncio. A respiração ofegante do velho era o único som naquela ligação. Pensei em tudo novamente. Alex me disse o nome dele. Mas, por que não pediu nada sobre ele?
- Os capangas eram meus. O policial morto me traiu. O delegado tinha informações que me interessam, deveria estar amarrado em meus pés nesse momento. É só isso o que você precisa saber.
- Não. E por que eles amarraram Laura? Por que queriam o guri?
- Laura é uma menina instável. Nem sempre aceita minha ajuda. Por isso, ela tinha que vir, querendo ou não. E o guri precisa ser cuidado agora.
- Enquanto você não me der explicações concretas, não vamos nos ver pessoalmente. É simples. Desembucha! Quero detalhes.
- Bota o menino no telefone.
Deixei o piá murmurar no telefone. Era impressionante como ele fazia silêncio durante todo aquele tempo. Ele só precisava de seu urso. Nada mais importava naquele mundo de inocência do meu filho. Cada vez que eu pensava isso era mais assustador: meu filho.
- Eu tinha negócios com o delegado e com aquele policial morto. Eles foram me tirar da jogada. Um, morreu. O outro ainda pode ser útil, pode me levar ao Alex.
- Por que você quer o Alex?
- Além de estar com a minha filha, ele se meteu nos negócios. Investigou o que não devia. Chegou perto demais do meu nome.
Me peguei pensando: ele tenha descoberto seu envolvimento? O velho tinha a certeza de que não, aparentemente, mas era uma certeza da qual eu não compartilhava. Mas, se descobriu algo, por que não me mandou atrás dele também?
- O delegado me traiu. Com ele, muitos viraram as costas para mim. - continuou.
- Mas e o Alex?
- O Alex virou culpado porque investigou seu superior. Mas o que o idiota não entendeu é que eu não tinha o delegado apenas como um protegido. Ele era minha garantia de que o desvio de carga não viria à tona. E, se viesse, eu não teria meu nome envolvido nisso.
- Mas será que agora ele sabe? Por que ele foi atrás da Laura? - sustentei a minha mentira.
- Laura me deixou sempre um passo à frente do Alex. Roubou todos os arquivos que me incriminavam. E ele nunca soube de nada. Mais fácil ter descoberto que é corno.
O velho não se deu conta de que a minha mentira não se sustentava. Como eu saberia que ela estava com Alex? Essa aflição crescia quando o meu mundo caiu. Como assim, Laura ajudando um corrupto? Mesmo que fosse seu pai, essa era uma grande surpresa para mim.
- Então, vamos recuperar a Laura e dar um sumiço no Alex? Mas o que me garante que você também não vai se livrar de mim?
- Preciso de um novo infiltrado nessa delegacia, e sei que você é policial. E, afinal de contas, meu neto precisa de um pai.
- E o delegado?
- Cuido dele depois.
Eu não fazia a menor ideia do que fazer. Mas, ter a possibilidade de um apoio poderoso para sair daquela cidade com vida e ainda ter a chance de acabar com o Alex era o melhor cenário.

- Certo, vou lhe enviar a localização.

sábado, 14 de julho de 2018

Capítulo 20 - O Caixão de Laura

Depois de me livrar do último perseguidor, entrei em um bairro da periferia. O marcador de combustível estava na reserva. Senti odor de gasolina. Com todo aquele tiroteio era bem provável que tivessem acertado nosso tanque. Eu teria de abandonar o automóvel. Vi um terreno baldio na esquina de uma quadra com um sobrado caindo aos pedaços e mato alto em torno da construção. Decidi entrar com o carro ali mesmo. Não havia muros ou tapumes e o local parecia desabitado. Estacionei entre a vegetação alta ocultando o veículo ao lado da casa em ruínas. Por sorte, as ruas se apresentavam desertas. A possibilidade de alguém avistar nossa invasão era remota. A madrugada em silêncio nos acobertava.
Apostei que não poderiam nos encontrar de imediato naquele lugar. Eu precisava ganhar algum tempo para organizar as ideias e retomar o controle da situação. Ainda com as mãos no volante, olhei para o lado e encarei Laura. Desliguei os faróis. Tive o impulso de abraçá-la e o fiz. Enchi os olhos de lágrimas como não fazia há muito tempo. Uma bala acertara o seu rosto do lado direito, bem no malar. Parte de sua beleza se esvaíra com o ferimento fatal. O rosto cheio de sangue e a pele arroxeada identificavam sua nova condição. As pálpebras abertas e os olhos estáticos fitavam o nada. Percebi a ponta da bala como um verme de metal aparecendo de forma sutil no alto de sua testa.
Eu não podia mudar as coisas que tinham acontecido. Mas o menino Nicolas, sentado atrás do banco do carona, ainda estava vivo. Talvez existisse um pouco de esperança para eu fazer algo de bom nessa existência. Peguei o pequeno e o acolhi em meus braços. Aconcheguei-o em meu peito e segurei a sua cabeça de maneira que não olhasse para o lado. Ele não merecia conviver com a imagem da morte da mãe gravada em sua memória.
Nicolas não chorara, nem mesmo com os trancos e barrancos pelos quais havíamos passado. Sua expressão era apenas de alguém que não compreendia onde estava ou o que acontecia. Levantei o olhar depois de verificar a inexistência de ferimento no menino e constatei, pelo espelho retrovisor do carro, o reflexo de uma viatura. O veículo rodava em baixa velocidade. Gelei. Sem dúvida estavam nos procurando. Meu coração pulou intensamente. Talvez eu já não fosse mais o mesmo, um sujeito de sangue frio como sempre me considerei. Por um momento, pensei que pudessem nos encontrar. Separar-nos em definitivo. Mas passaram batido.
Concluí que mais cedo ou mais tarde nos achariam caso permanecêssemos escondidos naquele terreno decrépito. Eu precisava fugir com o menino. No entanto, não queria deixar o corpo de Laura largado daquela maneira. Não queria perdê-la uma segunda vez. A minha consciência pesava. Arrependimento e tristeza me abalavam, deixando-me prostrado. Demorei um pouco para sair daquela inércia. Quanto mais eu ficasse protelando, pior. O cheiro de morte já começava a impregnar o carro. Então, peguei da mão da minha Laura a automática que seus dedos frios ainda apertavam como garras. Duas balas seriam mais do que suficientes para Alex, se eu o encontrasse em meu caminho. Abri a porta e saí com Nicolas do caixão de sua mãe.
Meu filho ainda segurava o urso de pelúcia que apertava junto ao meu peito. Nas costas do boneco havia um zíper. Estava entreaberto. Por curiosidade, decidi puxar o cursor e encontrei um pequeno objeto enrolado em um papel.

sábado, 7 de julho de 2018

Capítulo 19 - Dualidades

O tempo e o espaço tornaram-se difusos. Perdi a força diante da possibilidade iminente de morte da mulher da minha vida. Da mãe do meu filho. Da chance de uma família, vida normal, enfim, a qual vislumbrara a partir dos últimos acontecimentos. Um mundo de expectativas esvaiu-se no relance de um olhar desviado do caminho, rápido o bastante para alguém já íntimo da frieza da morte. Esta que tem cara, tem jeito e odor. Laura estava morta, e eu não tinha dúvidas disso, apesar de ainda assim, checar em vão sua pulsação. Todas as circunstâncias levavam ao meu fracasso; e, por um instante, o pé do acelerador chegou a hesitar. Acabou tudo, pensei. “Tudo, não” - o choro de criança recordou.
Ela jamais me perdoaria se eu deixasse algo acontecer com nosso filho. “Nosso filho”, quase conseguia me acostumar com aquela denominação.
Ouvi os parachoques mais uma vez roçando um ao outro, ruído que despertou minhas antigas habilidades em perseguição, ainda que normalmente ocupando a posição de quem persegue. Entretanto, foi também com meus vacilos que aprendi, foram os delinquentes mais habilidosos que me ensinaram: mais do que velocidade, o mérito da agilidade. Aproveitar-se da curta distância e alta velocidade, cortar-lhes o tempo de reação.
- Por ti, garoto! - Com um só braço o agarrei pela camiseta e o puxei para baixo, bem atrás do banco onde o corpo da mãe estava.
Podia sentir aqueles olhos de guri assustado fitando a minha figura ainda estranha, e quase ouvir rasgando sua inocência infantil, açoitada pelos últimos fatos.  
O pé voltou a afundar no acelerador, e numa guinada o carro retomou a velocidade, abrindo vantagem suficiente para uma escolha precisa. Na rua mais estreita que avistei, entrei. Uma, duas, três, na quarta quadra já não avistava mais o perseguidor, e a cada uma das que seguiram meu coração desacelerava um tanto. Mantinha apenas o necessário para fazer funcionar a cabeça, batimentos feito turbinas. Sempre trabalhei melhor sob pressão.
Segui dirigindo. Destino algum parecia suficientemente seguro. Tampouco pessoas confiáveis.
Recapitulei, informações ainda nebulosas, frases soltas, recortes cênicos vividos, contados e imaginados, sem lugar definido na trama montada em minha cabeça. O pai de Laura, o delegado, as torres Gêmeas. Papéis de mocinhos e vilões ainda não definitivamente distribuídos. Tramaram para Alex. Alex tramou para todo mundo. E essa era apenas uma das diversas dualidades das quais eu estava diante.
A única em quem eu confiaria a minha vida, agora morta, uma Laura cujo corpo jazia inerte ao meu lado.
Ainda assim, foi ela que sussurrou em minha mente: “Cuida bem deste ursinho, logo vamos precisar dele”. Este agora amassado por braços tão firmes quanto frágeis de criança, ambos ainda posicionados no vão entre encosto e cadeira. Dizem que os filhos são extensões de suas progenitoras, logo entendi, eu poderia confiar no guri, também.