Por mais sofrimento que você carregue em suas costas, por mais que a exaustão tome conta do que resta do seu corpo, uma hora tudo vai terminar.
Eu sei que parece a contracapa de um livro de autoajuda, mas é a mais pura verdade.
O espaço de tempo compreendido entre o telefonema de Laura e o ultimato de Alex nem era tão grande assim, mas tinha o peso de duas vidas inteiras.
Eu já não conseguia pensar racionalmente em nada, meus instintos é que me mantinham na vertical com meus olhos abertos.
Se não fosse pelo guri, eu já teria apressado um final.
Um guri que eu nem conhecia.
Que virou meu filho um segundo atrás.
E que importava.
Mas como um fodido que nem eu iria cuidar dessa criança sem a mãe? Um moleque que não anda e mal fala?
Pior: carrega consigo um cheque pré-datado de meio milhão.
Alex fez o certo, sabia que não ia durar muito mais. Juntou as forças que tinha num último movimento e me deu a chance que eu precisava. O mesmo Alex que queria foder comigo, diretamente responsável pelo encurtamento da vida de nossa amada, redimiu-se. Pelo menos eu vou morrer acreditando que havia algo de nobre na sua última ação.
O delegado respondeu a bravata com mais dois tiros, dessa vez entre os olhos do meu ex-melhor amigo.
Deixei que o corpo de Nicolas escorregasse do meus braços, a seguir aproveitei a curta distância que separava eu e o careca e me joguei com tudo em sua direção.
A surpresa foi minha aliada e o desgraçado não teve tempo de disparar novamente. Meu corpo cobriu o dele e, com as forças que me restavam, desferi uma infinidade de socos até a cabeça do homem virar uma massa disforme e eu ter certeza de que dali ele não levantaria.
Precisei de bem mais de um minuto pra recuperar o fôlego e minha audição voltar. A pulsação nos tímpanos tinha me impedido de ouvir o choro do meu filho. Tomei-o em meus braços mais uma vez, sujando toda a roupinha dele com o sangue do último filho da puta a lhe ameaçar.
Cantarolei uma canção qualquer enquanto fuçava nos bolsos do casaco do delegado. Carteira e chave do carro bastavam. Me despedi de Alex com um último olhar. Saí dali o mais rápido possível, certo que o tiroteio não ia ficar por isso mesmo, ainda mais com uma autoridade morta.
Precisava desaparecer daquela merda de cidade.
Apontei o controle pra todos os carros estacionados ao redor, já ia desistir quando um deles respondeu com um som agudo e um piscar de luzes. Acomodei Nicolas no banco de trás da melhor forma possível na ausência de uma cadeirinha. Vasculhei o porta-luvas e o porta-malas na busca por alguma ferramenta que me permitisse trocar as placas com outro veículo. A sorte, por enquanto, ainda me acompanhava: nenhum sinal de sirenes no perímetro. Consegui meu propósito e o carro do delegado tinha agora uma nova identidade. Chequei novamente o guri e saí em disparada.
Algumas quadras a seguir e o alvoroço de viaturas finalmente deu o ar da graça. Alguém encontrou os corpos e resolveu chamar a polícia.
Busquei as ruas menos movimentadas e pisei fundo. Precisava chegar o mais rápido possível na rodovia e abandonar o perímetro urbano.
Laura, Lauro, Alex, o delegado. Uma trilha de cadáveres que iria chegar em mim um dia. Não tinha como passar adiante essa conta.
Parei numa farmácia e fiz um rancho, analgésicos pra mim, fraldas e comida pro meu filho. Pra minha sorte, a carteira do delegado estava recheada. Uma loja pra roupas novas e um posto de gasolina pra encher o tanque.
Estrada livre.
Talvez o delegado não fosse uma figura tão importante assim pra uma busca prioritária.
Sorte minha.
Fronteira a 200 km avisou a placa.
Preciso ficar acordado até lá.
Um olhar pro meu filho no banco de trás.
- Você vai dar trabalho, moleque.
Em resposta um sorriso, o primeiro que mereci.
O estopim pra que meus olhos se enchessem de lágrimas.
A cidade cinza ficava para trás.
Um recomeço, uma chance de deixar de ser um merda, abria os braços pra mim.
Acelerei.






