Enquanto o carro andava, eu tentava organizar na cabeça o samba enredo daqueles últimos dias. O balanço do porta-malas, a cada solavanco das costas contra o estepe enferrujado, ajudava a me manter atento. Volta e meia, me inspirava olhando para o cano que permanecia vigilante apontado pra minha cara por um furo no banco traseiro.
Na boleia, o negão que, agora, por ordem do Alex, ia me ciceronear. Devia estar escolhendo o pior chão batido da região de propósito. E eu? Pra lá da dor da última noite, eu era só pensamentos. E lembranças. Toda aquela situação só dava mais combustível pra um doido como eu, viciado em adrenalina e perigo. Sim, porque, se o Alex tinha se tornado um psicopata, eu tinha convivido com um dentro de mim mesmo desde o berço. Só precisava deixar sair na hora certa.
Uma curva brusca à direita e meu corpo foi arremessado contra a lataria. A dor lancinante na cabeça, que amparou, na batida, meus 98kg, me fez pensar em emagrecer assim que saísse daquela. Na hora, me lembrei da Laura, viciada em cuidar do corpo. E que corpo! Fazia qualquer precipício valer a pena. Na real, eu estava feliz por não me sentir mais culpado em ter ferrado a vida do Alex. E isso me dava um motivo pra sair vivo: matar o desgraçado e finalmente ficar com a Laura e o guri.
Lembrei de como ele me contou: “A Laura tá grávida!”. Ele sorria muito. Disse que ela achava que estava ficando gorda. Até fazer o exame. Na hora eu não falei nada. Era carnaval. Estávamos num bar. Tomei o último gole e levantei. Passei por ele e dei dois tapas insossos no ombro. Parabéns. Ele saiu logo depois de mim e me alcançou. Disse que o pai dela tinha prometido uma festa de magnata pro neto quando nascesse. A festa nunca veio. O velho desapareceu do mapa sem deixar vestígios. O delegado fez a corporação inteira se dedicar ao caso, dia e noite. Fracassou. Não soube o que houve depois. LaurAlex decidiram ir pra longe. E eu continuei na minha. Até aquela ligação.
Por um momento, as lembranças me ajudaram a organizar um pouco a situação. Ferrado por ferrado, agora era fazer de tudo pra continuar vivo e adquirir algum controle. Abri os olhos e, em meio ao balanço, me firmando como podia, comecei a procurar por um buraco na lataria. Perto da sinaleira direita, consegui acesso à noite do lado de fora. Passamos pela lancheria do Mario. Lugar legal. Muita ceva e mulherada na juventude. Hoje era um ambiente mais família. Se estávamos naquela avenida, então o plano era voltar pra casa deles. Não ia demorar.
Um celular começou a tocar. Estava perto de mim em algum lugar. Me debati tentando encontrar. Número privado.
- Alô.
- Só vou te dizer um nome, Marquinho: Lauro Buarque. Aproveita o passeio.
Lauro? Lauro Buarque? Pensa, Marco. A Laura era Buarque. Nessa hora, o instinto policial começa a te dar respostas, ainda que soltas. Me veio um flashback do nada: “Que ninguém diga uma gracinha pra ela. É filha de um grande amigo meu e minha protegida. Certo?”. Segundo Alex, o delegado estava metido no caso. Lembrei disso por causa dele? Não. Era outra coisa: “(...) filha de um grande amigo meu (...)”. Grande amigo? Lauro Buarque? Pai da Laura Buarque? Talvez. Loucura minha ou o psicopata nato estava começando a achar o fio da meada?
Passamos por um bar de esquina. Dava pra ouvir um samba a todo o volume. Estávamos chegando. Devia ter me preparado. Num repente, voei de novo. Dessa vez, com as costelas no banco traseiro. Nem deu tempo de reclamar de dor. Abriram o porta-malas e me tiraram de lá. Voltamos ao ponto inicial como eu imaginei. O celular tocou de novo. Do outro lado, não mais a voz seca e autoritária.
- Entra, Marco. Devagar.
- Laura!? Como tu tá?
- Entra, Marco. Faz o que eu tô pedindo, por favor.
O desgraçado ia forçar ela a me dar as ordens. Tática admirável. Mas eu já estava imune à pressão. Entrei.
- Vai no quarto e pega uma caixa que tá na gaveta do criado mudo que tem um abajur em cima.
Fui até o quarto devagar. A casa inteira na penumbra. Abri a gaveta. A caixa era de papelão, recoberta por fotos do guri e da Laura. Alex nunca estava nas fotos. “Eu é que tinha que estar”, pensei.
- Encontrou?
Dentro da caixa, três pentes de 765 carregados sobre dois papéis dobrados. Abri o primeiro. Dei uma passada de olhos com ajuda da luz da janela: um seguro de vida do Alex no nome do guri no valor de 500 mil reais. Abri o segundo: a cópia de um testamento de João Lauro Buarque Rinaldi. Não consegui ler tudo. A voz abatida, mas doce que eu poderia ter ficado ouvindo o resto da noite desapareceu.
- Essa é a prova que tu precisava que a tua vagabunda vai ficar na boa. Agora faz o que tem que fazer.
- Mas o que...
Desligaram. Olhei pra trás, não havia ninguém no quarto. Corri até a porta e não vi mais nenhum dos capangas na casa. O som do samba foi abafado pelo gemido das sirenes. Cinco, talvez sete carros em alta velocidade. Voltei pra janela. Afastei de leve a cortina. Eu começava a interpretar a alegoria daquele carnaval fora de época. Do primeiro carro, altivo como sempre, desceu o delegado.
Me virei de costas para a parede. Olhei para o teto, respirando fundo. Lembrei das orações da minha mãe. Coloquei a mão na 765. Era hora do psicopata sair. Afinal, a emboscada podia ser pra mim ou pra ele. A decisão era minha. 

