sábado, 26 de maio de 2018

Capítulo 13 - Carnaval fora de época

Enquanto o carro andava, eu tentava organizar na cabeça o samba enredo daqueles últimos dias. O balanço do porta-malas, a cada solavanco das costas contra o estepe enferrujado, ajudava a me manter atento. Volta e meia, me inspirava olhando para o cano que permanecia vigilante apontado pra minha cara por um furo no banco traseiro.
Na boleia, o negão que, agora, por ordem do Alex, ia me ciceronear. Devia estar escolhendo o pior chão batido da região de propósito. E eu? Pra lá da dor da última noite, eu era só pensamentos. E lembranças. Toda aquela situação só dava mais combustível pra um doido como eu, viciado em adrenalina e perigo. Sim, porque, se o Alex tinha se tornado um psicopata, eu tinha convivido com um dentro de mim mesmo desde o berço. Só precisava deixar sair na hora certa.
Uma curva brusca à direita e meu corpo foi arremessado contra a lataria. A dor lancinante na cabeça, que amparou, na batida, meus 98kg, me fez pensar em emagrecer assim que saísse daquela. Na hora, me lembrei da Laura, viciada em cuidar do corpo. E que corpo! Fazia qualquer precipício valer a pena. Na real, eu estava feliz por não me sentir mais culpado em ter ferrado a vida do Alex. E isso me dava um motivo pra sair vivo: matar o desgraçado e finalmente ficar com a Laura e o guri.
Lembrei de como ele me contou: “A Laura tá grávida!”. Ele sorria muito. Disse que ela achava que estava ficando gorda. Até fazer o exame. Na hora eu não falei nada. Era carnaval. Estávamos num bar. Tomei o último gole e levantei. Passei por ele e dei dois tapas insossos no ombro. Parabéns. Ele saiu logo depois de mim e me alcançou. Disse que o pai dela tinha prometido uma festa de magnata pro neto quando nascesse. A festa nunca veio. O velho desapareceu do mapa sem deixar vestígios. O delegado fez a corporação inteira se dedicar ao caso, dia e noite. Fracassou. Não soube o que houve depois. LaurAlex decidiram ir pra longe. E eu continuei na minha. Até aquela ligação.
Por um momento, as lembranças me ajudaram a organizar um pouco a situação. Ferrado por ferrado, agora era fazer de tudo pra continuar vivo e adquirir algum controle. Abri os olhos e, em meio ao balanço, me firmando como podia, comecei a procurar por um buraco na lataria. Perto da sinaleira direita, consegui acesso à noite do lado de fora. Passamos pela lancheria do Mario. Lugar legal. Muita ceva e mulherada na juventude. Hoje era um ambiente mais família. Se estávamos naquela avenida, então o plano era voltar pra casa deles. Não ia demorar.
Um celular começou a tocar. Estava perto de mim em algum lugar. Me debati tentando encontrar. Número privado.
- Alô.
- Só vou te dizer um nome, Marquinho: Lauro Buarque. Aproveita o passeio.   
Lauro? Lauro Buarque? Pensa, Marco. A Laura era Buarque. Nessa hora, o instinto policial começa a te dar respostas, ainda que soltas. Me veio um flashback do nada: “Que ninguém diga uma gracinha pra ela. É filha de um grande amigo meu e minha protegida. Certo?”. Segundo Alex, o  delegado estava metido no caso. Lembrei disso por causa dele? Não. Era outra coisa: “(...) filha de um grande amigo meu (...)”. Grande amigo? Lauro Buarque? Pai da Laura Buarque? Talvez. Loucura minha ou o psicopata nato estava começando a achar o fio da meada?
Passamos por um bar de esquina. Dava pra ouvir um samba a todo o volume. Estávamos chegando. Devia ter me preparado. Num repente, voei de novo. Dessa vez, com as costelas no banco traseiro. Nem deu tempo de reclamar de dor. Abriram o porta-malas e me tiraram de lá. Voltamos ao ponto inicial como eu imaginei. O celular tocou de novo. Do outro lado, não mais a voz seca e autoritária.
- Entra, Marco. Devagar.
- Laura!? Como tu tá?
- Entra, Marco. Faz o que eu tô pedindo, por favor.
O desgraçado ia forçar ela a me dar as ordens. Tática admirável. Mas eu já estava imune à pressão. Entrei.
- Vai no quarto e pega uma caixa que tá na gaveta do criado mudo que tem um abajur em cima.  
Fui até o quarto devagar. A casa inteira na penumbra. Abri a gaveta. A caixa era de papelão, recoberta por fotos do guri e da Laura. Alex nunca estava nas fotos. “Eu é que tinha que estar”, pensei.
- Encontrou?
Dentro da caixa, três pentes de 765 carregados sobre dois papéis dobrados. Abri o primeiro. Dei uma passada de olhos com ajuda da luz da janela: um seguro de vida do Alex no nome do guri no valor de 500 mil reais. Abri o segundo: a cópia de um testamento de João Lauro Buarque Rinaldi. Não consegui ler tudo. A voz abatida, mas doce que eu poderia ter ficado ouvindo o resto da noite desapareceu.
- Essa é a prova que tu precisava que a tua vagabunda vai ficar na boa. Agora faz o que tem que fazer.
- Mas o que...
Desligaram. Olhei pra trás, não havia ninguém no quarto. Corri até a porta e não vi mais nenhum dos capangas na casa. O som do samba foi abafado pelo gemido das sirenes. Cinco, talvez sete carros em alta velocidade. Voltei pra janela. Afastei de leve a cortina. Eu começava a interpretar a alegoria daquele carnaval fora de época. Do primeiro carro, altivo como sempre, desceu o delegado.
Me virei de costas para a parede. Olhei para o teto, respirando fundo. Lembrei das orações da minha mãe. Coloquei a mão na 765. Era hora do psicopata sair. Afinal, a emboscada podia ser pra mim ou pra ele. A decisão era minha.   

sábado, 19 de maio de 2018

Capítulo 12 - Verdades e meias verdades

Como resposta, um chute nas minhas canelas – outra especialidade dele. Cambaleei, retorcido de dor, o brutamontes que me vigiava impediu que eu caísse. Muita gentileza.
Na minha frente, Alex:
- Tu continua te achando, né? Todo estropiado e não baixa a crista. Então tá pensando que o romance tá liberado, só porque tu viu tua amante, idiota? Tua vez já era. O comando aqui é meu, tá ligado? – a voz era apenas um sussurro, o sorriso debochado e o olhar insano bem perto. – Pois tu não vai mais falar com ela. Nem ver, pelo menos viva.
Eu já tinha visto aquele olhar antes. Mas onde? Quando?  Resolvi ganhar tempo. Melhor não provocar. Invocar a velha parceria talvez funcionasse.
-Tá, cara, olha só. Eu desisto de falar com a Laura se tu me prometer não maltratar mais ela. Tu já deu o primeiro passo do teu plano pra acabar comigo e o teu desafeto, tu já bateu um monte nela, agora vamos encarar esta porra juntos, tu e eu, que que tu acha? Como nos velhos tempos, hã?
Mais um chute, agora na costela. O ar fugiu, tonteei; escureceu tudo. O fim seria uma bênção.
Que fim, que nada. Voltei me afogando, cabeça mergulhada até o pescoço. Tive o tronco puxado com violência e o corpo arremessado no chão encharcado. Quantas vezes tínhamos usado essa técnica? O cara mais macho acabava abrindo o bico logo, logo.
- Tu tá de gozação comigo, né, Marquinho? Tu te acha em condição de propor acordo? “Se tu me prometeres”, te enxerga, seu escroto petulante. Tu não sacou que tu já tá morto? Não tem Laura, nem trato, nem nada. E não me provoca.
Entendi, calei e evitei olhar nos olhos dele, mesmo quando ele voltou a falar:
- Antes de eu te largar na cova do leão, eu tenho umas coisinha pra dizer pra ti. Não tenho pressa, tá tudo controlado aqui na volta, então lá vai um troço que tá entalado tem anos aqui, ó – o gesto indicava a garganta – e se eu não vomitar agora, falar com cadáver depois não vai dar, né?
Que diabos estaria por vir agora? E veio:
- Tu sempre te achou grande coisa, né?
Verdade – contrariando Dr. Freud e assemelhados, se era uma coisa que eu tinha era autoconfiança, peito, cara de pau. Eu me achava O bom. Isso antes de LaurAlex.
- Tu nasceu nesta merda de cidade, numa merda de família, tu fez um curso de merda na Academia – quantas vezes te dei cola, quantas outras ajudei a adulterar teus registros de desempenho nos treinamentos?
Também verdade – mas que diferença isso fazia agora? Bem, quanto mais tempo ele divagasse, melhor. Tratei de mostrar interesse, enquanto buscava saídas, a cabeça novamente a mil. Pensa, Marco, pensa.
- Mas esperteza nunca te faltou, né? – Alex prosseguiu – Com diploma na mão, tu cavou nomeação pra mesma Delegacia que eu e até conseguiu te tornar parceiro do aluno mais brilhante da nossa turma na Academia: eu, claro.
Meia verdade – a parceria tinha sido decidida de comum acordo, mas concordei com a cabeça, ficava bem no contexto. Não era hora de contrariar, e ele já estava falando de novo:
- O pior é que, mesmo sendo tão genioso, tão mal-humorado, tu tinha trânsito com o pessoal. Além da esperteza, claro. Tu sabia tirar vantagem de cada situação, né, mermão? – Papo mais fora de hora, aquele. – Logo tu reinava na Delegacia como o cara que resolvia tudo, o homem de confiança do chefão.
Mais uma verdade – eu era respeitado, o braço direito do delegado. Concordei novamente, lembrando tantos casos como o do Gonçalves, que o chefe pediu pra eu enquadrar mas exagerei, e ele... bom, deixa pra lá, aquele já era. Mas este na minha frente tá bem vivo Por enquanto. E doidão, parece.
Alex olhou para o nada e continuou a lengalenga. Parecia falar pra si mesmo, distante da dramática urgência em que nos encontrávamos, como se nada importasse mais do que seu desabafo:
- No início, eu te aceitei como te era e procurei valorizar tuas poucas qualidades, mas com o tempo tive de disfarçar o nojo que me dava tua autoconfiança e o teu prestígio.
- Nojo? – deixei escapar, o frio da arma na nuca amaciando minha voz.
- Muito mais que nojo: raiva, aversão, ódio. Mas sempre fui bom no disfarce: quanto mais rancoroso eu ficava, mais amigo eu era, enquanto esperava a ocasião pra te dar uma rasteira.
Será que a rasteira era aquilo, minha morte iminente?
- Quando Laura surgiu na Delegacia, saquei de cara teu interesse por ela. Prum cara fechado, tu te puxou nos sorrisos e mesuras, um babão ridículo. Tu até chegou a me falar que tavas a fim dela, lembra?
Não, eu não lembrava de ter falado. Mas do sentimento sim: eu queria muito a Laura pra mim.
- Pois então, Marquinho, o momento da rasteira tinha chegado. Eu caprichei no cerco à gata, ela caiu como uma patinha. Tu, otário, saiu fora no ato, respeitavas teu amigão, né? – A risada sardônica cortou a distância entre nós como lâmina. – Taí uma coisa que tenho que reconhecer, e que me irritava pra caramba: tu era um cara leal. – A voz, antes confessional, se elevou de novo:.
- Bom, mas voltando, todo mundo achou que fazíamos um par perfeito, uma dupla de cinema. Até inventaram um apelido, LaurAlex – coisa mais besta. Laura era gostosa pra caramba – tu sabe bem disso, né, seu canalha? Baita tesão, ela, curti muito. Mas o que eu queria mesmo era roubar teu objeto de desejo, a única fêmea que vi te interessar. E de quebra, eu é que seria o preferido da garota mais desejada da Delegacia, invejado por tudo o mundo.
Uma inquietação nova me bateu. Pelo rumo da prosa, vinha chumbo grosso, muito mais do que até ali. Eu era bom em resolver as coisas de frente, no concreto, olho no olho. Mas ali tava pintando uma certa loucura. A voz me trouxe de volta:
- Fiz questão que ficássemos bem próximos os três, lembra? Sabe pra quê, pra quê?
Alex prosseguia, a arma engatilhada na mão acompanhando os gestos dramáticos. Seria até bom se ele atirasse. Laura e o guri estavam perdidos – a tal bolada de grana ele não tinha, e ela, viva, ia ser uma ameaça. E eu já tava morto mesmo, seria poupado de continuar ouvindo os delírios dele.
- Pra que eu te queria perto, Marquinho? Pra infernizar mais tua vida. Pra saborear minha vitória. Ou tu acha que eu não sacava teu olho sonhando com a Laura pelada, comendo ela? Quando eu te chamava pra pousar lá em casa, nossa transa era, pô, cara, uma loucura. Laura gritando e eu te sabendo ali, louco pra tá no meu lugar.
Nessa altura, não sabia qual traição dele me abalava mais: com Laura ou comigo. Na verdade, o que me transtornava mesmo era a humilhação, o orgulho arrasado. Tão experiente, como não identifiquei os indícios? Não vai fazer outra cagada, Marco, raciocina, pensa, pesa, não te entrega.
Alex se calou, decerto saboreando minha cara de otário. Aproveitei para processar os novos dados em busca de alguma brecha pela qual eu pudesse chegar nele. A euforia de quem se acha em vantagem fragiliza o cara, eu sabia.
Então entendi as atitudes contraditórias do velho parceiro, tão racional algumas vezes, tão truculento outras. Então eu confirmei já ter visto aquele olhar insano.
E era isso: meu amigo Alex, parceiro de uma vida, que eu pensava ter traído tão torpemente, que até há pouco eu chorava a morte, tinha de fato morrido.
Quem estava ali na minha frente, quem convivera comigo tantos anos, era outro. O psicopata. Era com este que eu ia ter de lidar.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Capítulo 11 - Hora de partir pra ação

O guri era meu filho.
Por algum motivo Alex descobriu e agora essa era a sua melhor arma.
A morte forjada foi suficiente pra me trazer aqui. Alex sabia que eu não resistiria a um pedido de Laura. Assim como sabia que, revelando meu vínculo com a criança, eu faria o que ele quisesse em troca da segurança dos dois.
- Quem preciso matar, Alex?
Gargalhadas.
- Chega de enrolação, né, Marquinho?
- Chega, vamos partir pra ação.
Alex explicou que um figurão, parente de um outro figurão maior ainda, estava sob investigação. Parte da delegacia tinha monitorado o cara tempo suficiente pra juntar uma quantidade de provas que deixariam ele em cana até o fim do século. Só que alguém vazou a informação e o figurão mudou o ritmo do jogo. Começou a comprar gente da equipe e Alex se fodeu bonito, pois agora era acusado de tanta coisa que só fingindo sua morte pra ganhar fôlego.
- Vou me dar mal, certo?
- Vai sim, Marquinho, e esse será teu castigo por ter me colocado o par de chifres e me feito trocar as fraldas do teu filho.
- E depois?
- Depois tudo volta ao normal. Nada vai acontecer com a Laura nem com o teu filhote.
- Posso tomar um banho agora?
Os comparsas mascarados de Alex me desamarraram e me levaram até um banheiro. A água fria do chuveiro me revigorou e deu uma amenizada nos sangramentos. Fiquei ali uns quinze minutos. Depois de me secar, alguém me alcançou uma muda de roupa limpa.
- Tem cigarro aí, Alex?
- Toma.
Traguei a fumaça, tossi, cuspi.
- Quem é o cara?
- O cara é o delegado.
- Não era um figurão qualquer?
- O delegado tá junto.
Mais fumaça pra dentro de mim. Outra tossida.
- Qual o rolo?
- Coisa grande, desvio de carga e tráfico.
- Por que deu merda?
- Porque eu só descobri que ele tava junto depois que botaram no meu. Armaram pra mim do mesmo jeito que pra ti, meu amigo. Se eu der fim nesse cara, todo mundo vai voar direto no meu pescoço.
- Mas você não tá morto?
- Vou ressuscitar assim que essa merda se resolver. E, se tudo der certo com o teu serviço, como herói.
- Pra isso eu me fodo?
- Pra isso você se fode. Mas a Laura e o garoto escapam. Vão morar noutro país com uma bolada no bolso.
- Vou precisar de uma arma.
Um capanga me alcançou uma 765 raspada. Destravei a arma e chequei o pente. Tudo ok. Apontei pra cabeça do Alex e, na mesma fração de segundo, senti um cano frio encostar na minha nuca.
- Vai firme, Marquinho.
Recuei.
- Só queria te mostrar que tô vivo.
- Tô sabendo, por isso o negão aí vai ficar esperto contigo.
Eu tava na mão do Alex. Por hora tinha que dançar conforme a música.
- Posso ver a Laura antes?

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Capítulo 10 - Um veredito

A pior parte da tortura, além da dor, da humilhação, do sentimento de solidão e de impotência, seguramente, é a alucinação. Ao abrir os olhos e ver Laura, minha mente conseguiu lutar contra as imagens falsas e confusas que eu tinha vislumbrado durante alguns minutos. E o tribunal que eu vira já tinha um veredito: eu era culpado. E ali estava a prova.
Sobre meu colo, a foto dela; um consolo; breve. Alex deu um murro sobre a imagem ensanguentada. Eu gemi. Doeu muito. Essa era a intenção dele obviamente. Inclinei a cabeça para trás. A goteira me tiraria o foco da dor. Não podia parecer fraco.
- Então é por causa dela que a gente tá aqui, né? - concluí, ofegante, com os olhos apenas entreabertos, focando o rosto na foto, sem olhar para ele.
Alex apoiou as palmas das mãos nos braços da cadeira em que eu estava e aproximou o rosto de mim. Podíamos sentir a respiração quente e fétida um do outro, embora a minha fosse extremamente mais fraca, espaçada e doída. Ouvi a fala grave e racional que ele usava nos momentos de interrogatório:
- Marquinho, tu não é tão burro assim. Tu me conhece há bastante tempo. Não foi uma nem duas que a gente viveu junto, seu filho da mãe. Acha que tudo isso é por causa dela? Tu não entendeu a metade da missa, então.
Alex virou de costas, acendeu um cigarro, calmo. Demorou dois segundos, se virou num repente com a perna já no ar. Maldito treinamento militar. Eu sabia exatamente que ele faria aquilo.
Nessa hora, a dor diminui, pois está espalhada por tantos locais do corpo que o cérebro já nem registra qual deles está pior. Talvez fosse minha mão esquerda. Amarrada, na queda, ela ficou esmagada pelo encosto da cadeira, suportando o peso do meu corpo. Eu tossia. Chute no peito sempre foi a especialidade do Alex no corpo a corpo. A diferença é que ele geralmente não se atrevia a bater em alguém indefeso.
Caído de lado, procurei deixar a cabeça no chão. Era inútil tentar mantê-la em pé. Um fio de sangue escorreu pelo canto da boca. Respirar estava difícil. Comecei a tossir de novo.
- Imagina a cena, parceiro! Tu entra em casa, podre, mais um maldito dia de trabalho em que um maldito tribunal julga a causa de um cara que tu penou pra prender. O silêncio da casa te apavora. Tu sabe bem que a gente vive com medo que sobre pra quem a gente ama. Eu gritei por ela. Gritei pelo guri. E a resposta… a resposta, meu velho, foi um papel amassado em cima do sofá. Se o maldito do Dr. Jeffreys soubesse que a porcaria do exame que ele inventou podia acabar com um cara que nem eu, ele nem teria mexido com genética na vida dele.
- Mas de que merda tu tá falando?
Alex, num movimento preciso, acompanhado por um grunhido de raiva, me levantou do chão com cadeira e tudo. Passou o velho canivete dele nas cordas e me empurrou pro chão. Caí de joelhos. Estava tonto. Milissegundos se passaram, ouvi ruídos lá fora. Passos firmes. Alguém sendo arrastado. Ouvi o choro dela. Levantei a cabeça rapidamente e olhei a porta. Um dos encapuzados entrou, arrastando Laura. Atirou ela na minha frente como se fosse um peso de papel. Ela me olhou. Disse meu nome só com os lábios.
- O casalzinho sabe o que aquele maldito tribunal fez com o cara que eu prendi? Hein, Laura? Soltaram ele, soltaram aquele merda, sabia?! Injusto o veredito, né? Mas não foi o mais injusto que já passei. Não concorda, Laura?
Alex se virou de novo, deu duas baforadas no cigarro. Eu olhava para ela, tentando passar segurança. Difícil. Ela me passava pavor e arrependimento. Essa era a pior parte. Ambos sabíamos que a culpa era nossa. Só que ela sabia mais que eu. E Alex também.
Ele jogou a bituca no chão, se ajoelhou ao meu lado. Sarcástico, comprovando o caos em que se tornara a mente de um agente outrora condecorado, atirou um beijo para Laura. Colocou a mão no bolso e tirou calmamente uma foto. Jogou na nossa frente. Compreendi tudo. Ali estava o real motivo da ligação, da imagem no celular, da noite apocalíptica que a gente estava vivendo. O motivo de ele ter “morrido”. Amassada, meio apagada, no chão, entre nós.