sábado, 7 de julho de 2018

Capítulo 19 - Dualidades

O tempo e o espaço tornaram-se difusos. Perdi a força diante da possibilidade iminente de morte da mulher da minha vida. Da mãe do meu filho. Da chance de uma família, vida normal, enfim, a qual vislumbrara a partir dos últimos acontecimentos. Um mundo de expectativas esvaiu-se no relance de um olhar desviado do caminho, rápido o bastante para alguém já íntimo da frieza da morte. Esta que tem cara, tem jeito e odor. Laura estava morta, e eu não tinha dúvidas disso, apesar de ainda assim, checar em vão sua pulsação. Todas as circunstâncias levavam ao meu fracasso; e, por um instante, o pé do acelerador chegou a hesitar. Acabou tudo, pensei. “Tudo, não” - o choro de criança recordou.
Ela jamais me perdoaria se eu deixasse algo acontecer com nosso filho. “Nosso filho”, quase conseguia me acostumar com aquela denominação.
Ouvi os parachoques mais uma vez roçando um ao outro, ruído que despertou minhas antigas habilidades em perseguição, ainda que normalmente ocupando a posição de quem persegue. Entretanto, foi também com meus vacilos que aprendi, foram os delinquentes mais habilidosos que me ensinaram: mais do que velocidade, o mérito da agilidade. Aproveitar-se da curta distância e alta velocidade, cortar-lhes o tempo de reação.
- Por ti, garoto! - Com um só braço o agarrei pela camiseta e o puxei para baixo, bem atrás do banco onde o corpo da mãe estava.
Podia sentir aqueles olhos de guri assustado fitando a minha figura ainda estranha, e quase ouvir rasgando sua inocência infantil, açoitada pelos últimos fatos.  
O pé voltou a afundar no acelerador, e numa guinada o carro retomou a velocidade, abrindo vantagem suficiente para uma escolha precisa. Na rua mais estreita que avistei, entrei. Uma, duas, três, na quarta quadra já não avistava mais o perseguidor, e a cada uma das que seguiram meu coração desacelerava um tanto. Mantinha apenas o necessário para fazer funcionar a cabeça, batimentos feito turbinas. Sempre trabalhei melhor sob pressão.
Segui dirigindo. Destino algum parecia suficientemente seguro. Tampouco pessoas confiáveis.
Recapitulei, informações ainda nebulosas, frases soltas, recortes cênicos vividos, contados e imaginados, sem lugar definido na trama montada em minha cabeça. O pai de Laura, o delegado, as torres Gêmeas. Papéis de mocinhos e vilões ainda não definitivamente distribuídos. Tramaram para Alex. Alex tramou para todo mundo. E essa era apenas uma das diversas dualidades das quais eu estava diante.
A única em quem eu confiaria a minha vida, agora morta, uma Laura cujo corpo jazia inerte ao meu lado.
Ainda assim, foi ela que sussurrou em minha mente: “Cuida bem deste ursinho, logo vamos precisar dele”. Este agora amassado por braços tão firmes quanto frágeis de criança, ambos ainda posicionados no vão entre encosto e cadeira. Dizem que os filhos são extensões de suas progenitoras, logo entendi, eu poderia confiar no guri, também.

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