O tempo e o espaço tornaram-se difusos. Perdi a força diante da
possibilidade iminente de morte da mulher da minha vida. Da mãe do meu filho.
Da chance de uma família, vida normal, enfim, a qual vislumbrara a partir dos
últimos acontecimentos. Um mundo de expectativas esvaiu-se no relance de um
olhar desviado do caminho, rápido o bastante para alguém já íntimo da frieza da
morte. Esta que tem cara, tem jeito e odor. Laura estava morta, e eu não tinha
dúvidas disso, apesar de ainda assim, checar em vão sua pulsação. Todas as
circunstâncias levavam ao meu fracasso; e, por um instante, o pé do acelerador
chegou a hesitar. Acabou tudo, pensei. “Tudo, não” - o choro de criança
recordou.
Ela jamais me perdoaria se eu deixasse algo acontecer com nosso filho.
“Nosso filho”, quase conseguia me acostumar com aquela denominação.
Ouvi os parachoques mais uma vez roçando um ao outro, ruído que
despertou minhas antigas habilidades em perseguição, ainda que normalmente
ocupando a posição de quem persegue. Entretanto, foi também com meus vacilos
que aprendi, foram os delinquentes mais habilidosos que me ensinaram: mais do
que velocidade, o mérito da agilidade. Aproveitar-se da curta distância e alta
velocidade, cortar-lhes o tempo de reação.
- Por ti, garoto! - Com um só braço o agarrei pela camiseta e o puxei
para baixo, bem atrás do banco onde o corpo da mãe estava.
Podia sentir aqueles olhos de guri assustado fitando a minha figura
ainda estranha, e quase ouvir rasgando sua inocência infantil, açoitada pelos
últimos fatos.
O pé voltou a afundar no acelerador, e numa guinada o carro retomou a
velocidade, abrindo vantagem suficiente para uma escolha precisa. Na rua mais
estreita que avistei, entrei. Uma, duas, três, na quarta quadra já não avistava
mais o perseguidor, e a cada uma das que seguiram meu coração desacelerava um
tanto. Mantinha apenas o necessário para fazer funcionar a cabeça, batimentos
feito turbinas. Sempre trabalhei melhor sob pressão.
Segui dirigindo. Destino algum parecia suficientemente seguro. Tampouco
pessoas confiáveis.
Recapitulei, informações ainda nebulosas, frases soltas, recortes
cênicos vividos, contados e imaginados, sem lugar definido na trama montada em
minha cabeça. O pai de Laura, o delegado, as torres Gêmeas. Papéis de mocinhos
e vilões ainda não definitivamente distribuídos. Tramaram para Alex. Alex
tramou para todo mundo. E essa era apenas uma das diversas dualidades das quais
eu estava diante.
A única em quem eu confiaria a minha vida, agora morta, uma Laura cujo
corpo jazia inerte ao meu lado.
Ainda assim, foi ela que sussurrou em minha mente: “Cuida bem deste
ursinho, logo vamos precisar dele”. Este agora amassado por braços tão firmes
quanto frágeis de criança, ambos ainda posicionados no vão entre encosto e
cadeira. Dizem que os filhos são extensões de suas progenitoras, logo entendi,
eu poderia confiar no guri, também.
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