sábado, 30 de junho de 2018

Capítulo 18 - Sem Trégua

A viatura restante havia ficado pra trás.
Dirigi por algumas quadras em silêncio. Aos poucos, a pulsação voltando ao normal. Daria um dedo por um cigarro agora. Um cigarro e uma bebida. Nada no retrovisor além do guri agora de volta ao banco de trás e brincando com o urso. Laura fechou os olhos por um momento. Achei que era uma boa hora pra perguntar.
- Então ele é meu?
- É seu - ela respondeu sem me olhar.
- Por que não me disse nada?
- Porque você era um merda, Marco, e o meu filho precisava de um pai.
- Alex.
- Alex parecia a escolha certa, pelo visto me enganei.
- E essa história toda? Por que você me ligou, afinal?
- Alex descobriu tudo, na verdade, acho que ele tava investigando há algum tempo sem eu saber - ela finalmente abriu os olhos e ajeitou-se no banco. - Ele queria se vingar de nós dois.
- Mas tem mais coisa aí, né?
- Muito mais. Mas precisamos de um lugar seguro pra eu te contar.
- Pra onde a gente vai?
- Preciso passar num lugar antes, coisa rápida, depois é melhor a gente sair logo da cidade.
- Pra capital?
- Acho que não, ele tem muitos amigos lá. Vamos pra fronteira.
- Não tem muita gasolina.
- A gente abastece no caminho.
- O guri tá bem?
Ela olhou para o garoto que agora dormia abraçado no urso. Pelo canto do olho, pude ver ela segurando as lágrimas. Laura era uma mulher foda, mas estava no limite.
- Vai precisar de um tempo depois de tudo isso.
Queria dizer algo. Dizer que ia cuidar do moleque, dela, que eu podia dar a volta por cima e ser um homem diferente do cachorro que fui. Mas, provavelmente, jamais conseguiria transformar em palavras esses pensamentos. Também não sabia até que ponto Laura ia me querer por perto. Imerso no meu devaneio, nem percebi que ela estava falando comigo.
- Vai, acelera!
- Que foi?
- Estamos sendo seguidos.
Busquei os espelhos e lá estava a viatura de antes, aproximando-se rapidamente. Pisei fundo no acelerador e o carro respondeu, mas era impossível competir com um motor tão mais potente. Laura checou a arma e soltou um palavrão. O telefone voltou a tocar. O telefone! Merda, foi assim que Alex nos localizou. Abri o vidro do carro e joguei o aparelho longe. Agora tinha que despistar nosso perseguidor.
- Atira nele, Laura.
- Duas balas, melhor deixar pra usar na hora certa.
Concordei. Fui conduzindo o carro por instinto, entrando em ruas que não conhecia, procurando ganhar o máximo de tempo com as manobras, mas a viatura seguia firme em nosso encalço. Era uma questão de tempo até que outros carros se unissem a ela e nos encurralassem.
Um estampido deixou claro que a paciência deles havia acabado.
O barulho do vidro se espatifando acordou a criança e ela começou a gritar.
- Pega ele, Laura.
Os carros estavam agora muito próximos, vez por outra os parachoques se encontrando, dificultando ainda mais a minha condução.
- Pega a criança, Laura - repeti.
Mas Laura não respondeu. O corpo pendia para o lado da janela.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

Capítulo 17 - O Urso

Eu poderia congelar aquele momento. Com certeza eu tinha em meus braços a melhor coisa que eu fiz na vida.
Tudo o que Laura e eu sentíamos um pelo outro, misturado naqueles pequenos traços.
Ele estava tão agarrado em mim, que eu podia sentir seu coraçãozinho acelerado, como pequenos tambores fora de ritmo. Daria minha vida por ele. E foi aí que eu saí daquele transe. Naquele momento eu não podia ser pai. Eu tinha que agir.
O delegado tinha sido claro: em poucos minutos aquele lugar estaria cheio de colegas que não morriam de amores por mim. Coloquei meu menino de volta na cama e com voz suave disse:
- Fica quietinho aí. O titio já volta pra te pegar, tá?
Titio. Que vontade de escancarar um papai. Mas coitado do guri. Já tinha motivos suficientes para passar uma vida fazendo terapia. Esse seria mais um. Eu podia esperar.  
Coloquei o segundo pente na 765 e desci aquelas escadas o mais rápido que eu pude. Encontrei o delegado, o policial e Laura amarrados.
Desamarrei Laura e a puxei pela mão.
- Vamos. Não podemos perder tempo.
- E a tua missão? A tua missão, Marcos?
- Não vou colocar isso na minha conta. Vem.
Subimos as escadas correndo e voltamos pro quarto do Nicolas. Ele correu pros braços de Laura, que o beijou em meio a lágrimas de aflição. Pegou os documentos da caixa e, por último, um urso de pelúcia que estava em cima da cama do menino. Só uma mãe pra lembrar de um urso de pelúcia numa hora dessas.
Começamos a ouvir o barulho de sirenes ao longe. Parecia ser mais de uma viatura, mas não dava pra ter certeza.
A festinha estava pra começar e eu preferia estar longe dali, antes da primeira música tocar.
Descemos os três correndo, Laura foi até o policial e fazendo uma revista, achou as chaves do carro.
- Sua desgraçada. Isso não vai ficar assim - disse o delegado.
- Cala a boca, seu verme. Só não te mato hoje, por que odeio cumprir ordens de quem não confio - falei, segurando com raiva aquele queixo gorducho.
Saímos da casa e entramos no carro. Laura, o guri e o urso no banco de trás. Nisso, as viaturas foram chegando, já atirando.
Passei a 765 carregada para Laura, o pente extra que ainda tinha, engatei a ré e afundei o pé no acelerador.
Ela era boa de mira. Sempre saía bem nas provas de balística.
Fui andando em zigue-zague pra dificultar que nos acertassem. Eram três viaturas. Três contra um.
Atingi uma delas com a traseira do carro e com o impacto foi jogada a uma distância mais segura de nós.
Continuei, olhando pra trás e com o carro em alta velocidade puxei o freio de mão e dei um cavalo de pau, deixando o carro de frente. Dirigir olhando pra trás dá um puta torcicolo.
Passei pelas duas viaturas em alta velocidade e uma delas saiu em perseguição atrás de nós.
Os tiros não paravam e pelas minhas contas, Laura já estava no último pente.
- Mira nos pneus. Mira nos pneus, falei.
Ela deu dois tiros certeiros no pneu dianteiro esquerdo e a viatura perdeu o controle capotando várias vezes.
Vi pelo retrovisor os pneus virados pra cima e, finalmente, respirei aliviado.
Ela pegou Nicolas, que estava com o urso no assoalho do carro, atrás do banco do motorista e o abraçou forte.
- Tá tudo bem, meu amor. A mamãe tá aqui.
Comecei a sentir algo vibrando no meu bolso. Era o telefone. Atendi.
- Filho da puta. E a missão que eu te dei? Tu tá morto, Marcos. Morto! Pode escrever.
Laura arrancou o telefone da minha mão e colocou pra fora toda a sua fúria.
- Alex, tu vai te arrepender de ter nascido, seu desgraçado. Vou ser teu pior pesadelo. Pode acreditar. - E desligou.
- Marcos, pega a próxima avenida à esquerda e segue em frente. Temos que ir até um outro lugar, não fica muito longe daqui.
Nicolas pegou o urso e começou a cantarolar qualquer coisa, fazendo de conta que ele estava dançando.
- Cuida bem deste ursinho, meu amor. Logo, logo, a gente vai precisar dele.

sábado, 16 de junho de 2018

Capítulo 16 - Pasodoble

A tensão fremia em mim. A escada, aquela que eu ainda me esgueirava, parecia querer desabar. Meu peso triplicara com o aperto que sufocava o peito. O coração fiou-se na esperança de tudo acabar bem. Vã esperança. Eles, as torres gêmeas, iriam subir até o quarto do Nicolas.

Quem eram? O que queriam? Impossível saber. Subi rápido, dosando o peso em cada degrau para evitar o barulho. Uma bailarina dançando com o perigo. Os passos leves e a alma pesada me guiaram até o quarto do guri. Já com a arma na mão, me escondi em meio aos tantos ursos de pelúcia, no canto oposto da pequena cama. Grandes, fofos e quentes. E com muito ácaro. Torci para minha rinite dar trégua. Ali era meu bunker de guerrilha. Ou minha pista de dança.

Depois de amarrarem o delegado, o policial e Laura, eles subiram. Impávidos, cheios de si, vieram resolver o serviço. Entraram no quarto. Em silêncio. Um deles foi em direção ao guri. Nicolas sorriu, como se conhecesse. Disse, para meu espanto, ainda tentando falar, a palavra "titio". Nada fez sentido. Será que Laura sabia quem eles eram? De todo o modo, eu estava pronto para atacar. Dois pra lá, dois pra cá. Não fosse o urso de pelúcia gigante que atiçou meu nariz. Um espirro agudo. Nicolas voltou pra cama. O choro forte da criança foi entremeado com tiros. Muitos. Todos.

Enquanto que as torres gêmeas atiravam para qualquer canto, sem saber de onde veio o barulho, eu esperei. Quando as balas cessaram, eu atirei. As torres nunca se separam. Estavam lado a lado. Foi fácil. Uma, duas, três vezes. Doze tiros. Com o ódio comendo o fígado, derrubei as torres gêmeas. Um Osama Bin Laden pós-moderno. Os dois mortos, ali, na minha frente. Restava comemorar. Peguei meu filho no colo e dancei. Vitória da bailarina. O passo mais lindo que fiz na vida.

sábado, 9 de junho de 2018

Capítulo 15 - Torres gêmeas

Desci na espreita, fazendo mil projeções. Voltava à minha equação impossível de resolver, ao mesmo tempo em que temia pelo que podia encontrar lá embaixo. Me esgueirei na descida da escada e consegui ver a cena.
Dois homens altos, verdadeiros armários, estavam parados em frente à porta. Ambos apontavam seus revólveres para o delegado, para o outro policial que eu não conhecia e para a Laura. Os três estavam surpresos, o que era um mau sinal, com suas armas jogadas ao chão. A sexta pessoa estava sobre a mesa de centro, morta. O sangue escorria entre os estilhaços.
- Isso foi desnecessário. Mas posso relevar. Vocês ainda podem fazer a escolha sensata - disse o delegado, agora apresentando uma arrogância de quem controla o mundo.
- Vamos, delegado! Era só um soldado - debochou uma das torres gêmeas.
Não dava pra saber se o delegado conhecia aqueles homens. Mas, certamente, sabia o motivo deles estarem ali. Laura já não apresentava mais surpresa, mas uma certa tensão. Era o animal primitivo preparando seus músculos para agir. E o terceiro sujeito estava perplexo, em estado de choque. Talvez tivesse perdido seu parceiro diário de trabalho, uma situação horrível.
- Não preciso dizer que toda a polícia da região chegará aqui em poucos minutos, não é? Não tô falando com amadores - provocava o delegado.
Meu sentimento era dúbio. Se, por algum motivo, algum revólver inventasse de disparar em direção ao delegado, bingo! Problema parcialmente resolvido. Mas, ao mesmo tempo, Laura tava na linha de frente. Que situação do caralho!
- Bom, então, vamos direto ao ponto. Preferia tomar um café, mas vamos resolver logo isso - disse o outro troglodita.
- Certo, cavalheiros. O que vocês querem?
- Nós viemos pegar uma coisa - disse o B1.
- Preferíamos que não tivesse ninguém em casa. Foi mal o transtorno - B2 completou.
Pior do que toda essa situação era aquele jogral patético dos assassinos. Era só o que me faltava. Quando foi que eu tinha ido parar nos filmes de ação dos anos 1980, 1990? Se bem que não seria má ideia encarnar o John McClane.
- Laura, você pode nos levar até o quarto do menino? - disse o mais irônico deles.
- Eu te mato, filha da puta - respondeu Laura.
Eu estava desarmado. Não tinha o que fazer. Comecei a pensar se ia até o quarto do guri. Se fugia com ele. Se tentava alguma coisa ali mesmo. Entre as tantas possibilidades, ouvi mais uma frase.

- Pode ter calma, nosso chefe jamais machucaria o menino.

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Capítulo 14 - A troca

Ouvi quando a porta principal foi aberta. Na rua, as sirenes ainda gritavam. Fiz o possível para concentrar toda a minha percepção nos passos que aconteciam dentro da casa. O delegado não estava sozinho. Na minha confusa matemática, calculei, ao todo, três pessoas. O delegado, Laura e um terceiro, desconhecido por mim. Conversavam aleatoriedades. Era evidente que não viviam a mesma tensão em que eu me encontrava. Ou, talvez, fosse apenas teatro.
Saí do quarto e, no máximo silêncio possível, fui caminhando na direção deles. As vozes me guiavam pela penumbra da casa. Até que fui interrompido por um choro. Choro de criança. Colei o ouvido na porta que tinha o nome Nicolas grafado. Vinha dali. Girei a maçaneta. Diante de mim, em um quarto colorido, enquanto eu segurava uma 765, meu filho me via pela primeira vez. Fiquei imóvel.
- Acho que o barulho dos carros acordou ele – Laura apareceu de repente, pegando nossa mistura no colo.
Percebi os machucados no corpo dela, mas preferi focar na semelhança entre os dois. Eram tão parecidos! Pessoalmente, ainda mais. Tentando acalmar o garoto, ela caminhava entre a cama e o armário, acarinhando as costas dele. Esqueci o que eu fazia ali. Meu lado psicopata falhou.
- Posso segurar? – perguntei.
Laura me olhou com ar incrédulo e fazendo sinal para que eu falasse baixo.
- A sua missão está lá na sala – ela disse.
- Só um pouco – pedi.
Ela me entregou a criança ao mesmo tempo em que tirava a 765 da minha mão. Resmunguei alguma coisa e ela me calou com um rápido beijo.
- Preciso ir, vão desconfiar - ela falou.
Saindo do cômodo, deixou somente o seu cheiro por ali. Pude ouvir quando, na sala, para os demais, disse que o garoto já estava mais calmo.
Sentei na poltrona com o meu guri, que, deitado no meu ombro, se distraía brincando com a minha orelha. Eu era pai. Alex devia me odiar por isso. A alguns metros de nós, mais pessoas entraram na casa. Vozes diferentes. Gritos começaram. Uma discussão. Barulho de vidro quebrando. Um tiro aconteceu.
Pela primeira vez, silêncio. Larguei meu filho na cama, novamente aos prantos. Peguei a chave na fechadura interior e, com ele dentro, tranquei a porta do quarto. Fui ver o que tinha acontecido.