Dirigi por algumas quadras em silêncio. Aos poucos, a pulsação voltando ao normal. Daria um dedo por um cigarro agora. Um cigarro e uma bebida. Nada no retrovisor além do guri agora de volta ao banco de trás e brincando com o urso. Laura fechou os olhos por um momento. Achei que era uma boa hora pra perguntar.
- Então ele é meu?
- É seu - ela respondeu sem me olhar.
- Por que não me disse nada?
- Porque você era um merda, Marco, e o meu filho precisava de um pai.
- Alex.
- Alex parecia a escolha certa, pelo visto me enganei.
- E essa história toda? Por que você me ligou, afinal?
- Alex descobriu tudo, na verdade, acho que ele tava investigando há algum tempo sem eu saber - ela finalmente abriu os olhos e ajeitou-se no banco. - Ele queria se vingar de nós dois.
- Mas tem mais coisa aí, né?
- Muito mais. Mas precisamos de um lugar seguro pra eu te contar.
- Pra onde a gente vai?
- Preciso passar num lugar antes, coisa rápida, depois é melhor a gente sair logo da cidade.
- Pra capital?
- Acho que não, ele tem muitos amigos lá. Vamos pra fronteira.
- Não tem muita gasolina.
- A gente abastece no caminho.
- O guri tá bem?
Ela olhou para o garoto que agora dormia abraçado no urso. Pelo canto do olho, pude ver ela segurando as lágrimas. Laura era uma mulher foda, mas estava no limite.
- Vai precisar de um tempo depois de tudo isso.
Queria dizer algo. Dizer que ia cuidar do moleque, dela, que eu podia dar a volta por cima e ser um homem diferente do cachorro que fui. Mas, provavelmente, jamais conseguiria transformar em palavras esses pensamentos. Também não sabia até que ponto Laura ia me querer por perto. Imerso no meu devaneio, nem percebi que ela estava falando comigo.
- Vai, acelera!
- Que foi?
- Estamos sendo seguidos.
Busquei os espelhos e lá estava a viatura de antes, aproximando-se rapidamente. Pisei fundo no acelerador e o carro respondeu, mas era impossível competir com um motor tão mais potente. Laura checou a arma e soltou um palavrão. O telefone voltou a tocar. O telefone! Merda, foi assim que Alex nos localizou. Abri o vidro do carro e joguei o aparelho longe. Agora tinha que despistar nosso perseguidor.
- Atira nele, Laura.
- Duas balas, melhor deixar pra usar na hora certa.
Concordei. Fui conduzindo o carro por instinto, entrando em ruas que não conhecia, procurando ganhar o máximo de tempo com as manobras, mas a viatura seguia firme em nosso encalço. Era uma questão de tempo até que outros carros se unissem a ela e nos encurralassem.
Um estampido deixou claro que a paciência deles havia acabado.
O barulho do vidro se espatifando acordou a criança e ela começou a gritar.
- Pega ele, Laura.
Os carros estavam agora muito próximos, vez por outra os parachoques se encontrando, dificultando ainda mais a minha condução.
- Pega a criança, Laura - repeti.
Mas Laura não respondeu. O corpo pendia para o lado da janela.




