Como resposta, um chute nas minhas canelas – outra especialidade dele. Cambaleei, retorcido de dor, o brutamontes que me vigiava impediu que eu caísse. Muita gentileza.Na minha frente, Alex:
- Tu continua te achando, né? Todo estropiado e não baixa a crista. Então tá pensando que o romance tá liberado, só porque tu viu tua amante, idiota? Tua vez já era. O comando aqui é meu, tá ligado? – a voz era apenas um sussurro, o sorriso debochado e o olhar insano bem perto. – Pois tu não vai mais falar com ela. Nem ver, pelo menos viva.
Eu já tinha visto aquele olhar antes. Mas onde? Quando? Resolvi ganhar tempo. Melhor não provocar. Invocar a velha parceria talvez funcionasse.
-Tá, cara, olha só. Eu desisto de falar com a Laura se tu me prometer não maltratar mais ela. Tu já deu o primeiro passo do teu plano pra acabar comigo e o teu desafeto, tu já bateu um monte nela, agora vamos encarar esta porra juntos, tu e eu, que que tu acha? Como nos velhos tempos, hã?
Mais um chute, agora na costela. O ar fugiu, tonteei; escureceu tudo. O fim seria uma bênção.
Que fim, que nada. Voltei me afogando, cabeça mergulhada até o pescoço. Tive o tronco puxado com violência e o corpo arremessado no chão encharcado. Quantas vezes tínhamos usado essa técnica? O cara mais macho acabava abrindo o bico logo, logo.
- Tu tá de gozação comigo, né, Marquinho? Tu te acha em condição de propor acordo? “Se tu me prometeres”, te enxerga, seu escroto petulante. Tu não sacou que tu já tá morto? Não tem Laura, nem trato, nem nada. E não me provoca.
Entendi, calei e evitei olhar nos olhos dele, mesmo quando ele voltou a falar:
- Antes de eu te largar na cova do leão, eu tenho umas coisinha pra dizer pra ti. Não tenho pressa, tá tudo controlado aqui na volta, então lá vai um troço que tá entalado tem anos aqui, ó – o gesto indicava a garganta – e se eu não vomitar agora, falar com cadáver depois não vai dar, né?
Que diabos estaria por vir agora? E veio:
- Tu sempre te achou grande coisa, né?
Verdade – contrariando Dr. Freud e assemelhados, se era uma coisa que eu tinha era autoconfiança, peito, cara de pau. Eu me achava O bom. Isso antes de LaurAlex.
- Tu nasceu nesta merda de cidade, numa merda de família, tu fez um curso de merda na Academia – quantas vezes te dei cola, quantas outras ajudei a adulterar teus registros de desempenho nos treinamentos?
Também verdade – mas que diferença isso fazia agora? Bem, quanto mais tempo ele divagasse, melhor. Tratei de mostrar interesse, enquanto buscava saídas, a cabeça novamente a mil. Pensa, Marco, pensa.
- Mas esperteza nunca te faltou, né? – Alex prosseguiu – Com diploma na mão, tu cavou nomeação pra mesma Delegacia que eu e até conseguiu te tornar parceiro do aluno mais brilhante da nossa turma na Academia: eu, claro.
Meia verdade – a parceria tinha sido decidida de comum acordo, mas concordei com a cabeça, ficava bem no contexto. Não era hora de contrariar, e ele já estava falando de novo:
- O pior é que, mesmo sendo tão genioso, tão mal-humorado, tu tinha trânsito com o pessoal. Além da esperteza, claro. Tu sabia tirar vantagem de cada situação, né, mermão? – Papo mais fora de hora, aquele. – Logo tu reinava na Delegacia como o cara que resolvia tudo, o homem de confiança do chefão.
Mais uma verdade – eu era respeitado, o braço direito do delegado. Concordei novamente, lembrando tantos casos como o do Gonçalves, que o chefe pediu pra eu enquadrar mas exagerei, e ele... bom, deixa pra lá, aquele já era. Mas este na minha frente tá bem vivo Por enquanto. E doidão, parece.
Alex olhou para o nada e continuou a lengalenga. Parecia falar pra si mesmo, distante da dramática urgência em que nos encontrávamos, como se nada importasse mais do que seu desabafo:
- No início, eu te aceitei como te era e procurei valorizar tuas poucas qualidades, mas com o tempo tive de disfarçar o nojo que me dava tua autoconfiança e o teu prestígio.
- Nojo? – deixei escapar, o frio da arma na nuca amaciando minha voz.
- Muito mais que nojo: raiva, aversão, ódio. Mas sempre fui bom no disfarce: quanto mais rancoroso eu ficava, mais amigo eu era, enquanto esperava a ocasião pra te dar uma rasteira.
Será que a rasteira era aquilo, minha morte iminente?
- Quando Laura surgiu na Delegacia, saquei de cara teu interesse por ela. Prum cara fechado, tu te puxou nos sorrisos e mesuras, um babão ridículo. Tu até chegou a me falar que tavas a fim dela, lembra?
Não, eu não lembrava de ter falado. Mas do sentimento sim: eu queria muito a Laura pra mim.
- Pois então, Marquinho, o momento da rasteira tinha chegado. Eu caprichei no cerco à gata, ela caiu como uma patinha. Tu, otário, saiu fora no ato, respeitavas teu amigão, né? – A risada sardônica cortou a distância entre nós como lâmina. – Taí uma coisa que tenho que reconhecer, e que me irritava pra caramba: tu era um cara leal. – A voz, antes confessional, se elevou de novo:.
- Bom, mas voltando, todo mundo achou que fazíamos um par perfeito, uma dupla de cinema. Até inventaram um apelido, LaurAlex – coisa mais besta. Laura era gostosa pra caramba – tu sabe bem disso, né, seu canalha? Baita tesão, ela, curti muito. Mas o que eu queria mesmo era roubar teu objeto de desejo, a única fêmea que vi te interessar. E de quebra, eu é que seria o preferido da garota mais desejada da Delegacia, invejado por tudo o mundo.
Uma inquietação nova me bateu. Pelo rumo da prosa, vinha chumbo grosso, muito mais do que até ali. Eu era bom em resolver as coisas de frente, no concreto, olho no olho. Mas ali tava pintando uma certa loucura. A voz me trouxe de volta:
- Fiz questão que ficássemos bem próximos os três, lembra? Sabe pra quê, pra quê?
Alex prosseguia, a arma engatilhada na mão acompanhando os gestos dramáticos. Seria até bom se ele atirasse. Laura e o guri estavam perdidos – a tal bolada de grana ele não tinha, e ela, viva, ia ser uma ameaça. E eu já tava morto mesmo, seria poupado de continuar ouvindo os delírios dele.
- Pra que eu te queria perto, Marquinho? Pra infernizar mais tua vida. Pra saborear minha vitória. Ou tu acha que eu não sacava teu olho sonhando com a Laura pelada, comendo ela? Quando eu te chamava pra pousar lá em casa, nossa transa era, pô, cara, uma loucura. Laura gritando e eu te sabendo ali, louco pra tá no meu lugar.
Nessa altura, não sabia qual traição dele me abalava mais: com Laura ou comigo. Na verdade, o que me transtornava mesmo era a humilhação, o orgulho arrasado. Tão experiente, como não identifiquei os indícios? Não vai fazer outra cagada, Marco, raciocina, pensa, pesa, não te entrega.
Alex se calou, decerto saboreando minha cara de otário. Aproveitei para processar os novos dados em busca de alguma brecha pela qual eu pudesse chegar nele. A euforia de quem se acha em vantagem fragiliza o cara, eu sabia.
Então entendi as atitudes contraditórias do velho parceiro, tão racional algumas vezes, tão truculento outras. Então eu confirmei já ter visto aquele olhar insano.
E era isso: meu amigo Alex, parceiro de uma vida, que eu pensava ter traído tão torpemente, que até há pouco eu chorava a morte, tinha de fato morrido.
Quem estava ali na minha frente, quem convivera comigo tantos anos, era outro. O psicopata. Era com este que eu ia ter de lidar.
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