sexta-feira, 4 de maio de 2018

Capítulo 10 - Um veredito

A pior parte da tortura, além da dor, da humilhação, do sentimento de solidão e de impotência, seguramente, é a alucinação. Ao abrir os olhos e ver Laura, minha mente conseguiu lutar contra as imagens falsas e confusas que eu tinha vislumbrado durante alguns minutos. E o tribunal que eu vira já tinha um veredito: eu era culpado. E ali estava a prova.
Sobre meu colo, a foto dela; um consolo; breve. Alex deu um murro sobre a imagem ensanguentada. Eu gemi. Doeu muito. Essa era a intenção dele obviamente. Inclinei a cabeça para trás. A goteira me tiraria o foco da dor. Não podia parecer fraco.
- Então é por causa dela que a gente tá aqui, né? - concluí, ofegante, com os olhos apenas entreabertos, focando o rosto na foto, sem olhar para ele.
Alex apoiou as palmas das mãos nos braços da cadeira em que eu estava e aproximou o rosto de mim. Podíamos sentir a respiração quente e fétida um do outro, embora a minha fosse extremamente mais fraca, espaçada e doída. Ouvi a fala grave e racional que ele usava nos momentos de interrogatório:
- Marquinho, tu não é tão burro assim. Tu me conhece há bastante tempo. Não foi uma nem duas que a gente viveu junto, seu filho da mãe. Acha que tudo isso é por causa dela? Tu não entendeu a metade da missa, então.
Alex virou de costas, acendeu um cigarro, calmo. Demorou dois segundos, se virou num repente com a perna já no ar. Maldito treinamento militar. Eu sabia exatamente que ele faria aquilo.
Nessa hora, a dor diminui, pois está espalhada por tantos locais do corpo que o cérebro já nem registra qual deles está pior. Talvez fosse minha mão esquerda. Amarrada, na queda, ela ficou esmagada pelo encosto da cadeira, suportando o peso do meu corpo. Eu tossia. Chute no peito sempre foi a especialidade do Alex no corpo a corpo. A diferença é que ele geralmente não se atrevia a bater em alguém indefeso.
Caído de lado, procurei deixar a cabeça no chão. Era inútil tentar mantê-la em pé. Um fio de sangue escorreu pelo canto da boca. Respirar estava difícil. Comecei a tossir de novo.
- Imagina a cena, parceiro! Tu entra em casa, podre, mais um maldito dia de trabalho em que um maldito tribunal julga a causa de um cara que tu penou pra prender. O silêncio da casa te apavora. Tu sabe bem que a gente vive com medo que sobre pra quem a gente ama. Eu gritei por ela. Gritei pelo guri. E a resposta… a resposta, meu velho, foi um papel amassado em cima do sofá. Se o maldito do Dr. Jeffreys soubesse que a porcaria do exame que ele inventou podia acabar com um cara que nem eu, ele nem teria mexido com genética na vida dele.
- Mas de que merda tu tá falando?
Alex, num movimento preciso, acompanhado por um grunhido de raiva, me levantou do chão com cadeira e tudo. Passou o velho canivete dele nas cordas e me empurrou pro chão. Caí de joelhos. Estava tonto. Milissegundos se passaram, ouvi ruídos lá fora. Passos firmes. Alguém sendo arrastado. Ouvi o choro dela. Levantei a cabeça rapidamente e olhei a porta. Um dos encapuzados entrou, arrastando Laura. Atirou ela na minha frente como se fosse um peso de papel. Ela me olhou. Disse meu nome só com os lábios.
- O casalzinho sabe o que aquele maldito tribunal fez com o cara que eu prendi? Hein, Laura? Soltaram ele, soltaram aquele merda, sabia?! Injusto o veredito, né? Mas não foi o mais injusto que já passei. Não concorda, Laura?
Alex se virou de novo, deu duas baforadas no cigarro. Eu olhava para ela, tentando passar segurança. Difícil. Ela me passava pavor e arrependimento. Essa era a pior parte. Ambos sabíamos que a culpa era nossa. Só que ela sabia mais que eu. E Alex também.
Ele jogou a bituca no chão, se ajoelhou ao meu lado. Sarcástico, comprovando o caos em que se tornara a mente de um agente outrora condecorado, atirou um beijo para Laura. Colocou a mão no bolso e tirou calmamente uma foto. Jogou na nossa frente. Compreendi tudo. Ali estava o real motivo da ligação, da imagem no celular, da noite apocalíptica que a gente estava vivendo. O motivo de ele ter “morrido”. Amassada, meio apagada, no chão, entre nós.  

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