Com o berreiro de Nicolas, não consegui
identificar a procedência dos tiros, só me ocorria proteger e consolar meu
menino. Me arrastei até onde ele estava e cobri seu corpo, me arrastando até o
matagal próximo ao banco. Tentei – mais uma vez – recompor o cenário em busca
de algum sentido. Quem sabe eu subestimara Lauro, pensando que poderia escapar
dele e de seus asseclas? Quem sabe Alex me seguira? Porque eu estava convencido
de que os tiros tinham a ver comigo, conosco, com Laura, com o menino. Podia até
jurar.
Mais tiros. Com Nicolas mais calmo, pude
distinguir a origem: vinham do jardim adjacente ao asilo. Na sequência, um
grito desesperado de dor.
- Filho da puta! – ouvi, sem
reconhecer a voz.
Bem, se alguém atirou e outro alguém foi
baleado, então talvez o alvo não fosse eu. Pelo menos neste momento.
E agora? Devo ficar feito morto, até a
poeira baixar, ou arriscar a ser visto na fuga? Porque, se vieram até aqui,
sabem que ando na volta. E não vão demorar a me achar, posso apostar. E aposto
em Lauro, o Cappo. Todas as fichas no vermelho, croupier. Vermelho
sangue, de preferência. Um minuto, dois, três. Nada. Nenhum barulho, nenhum
movimento.
Um frio bem conhecido em minha nuca
percorreu-me a espinha, gelando minhas entranhas.
- Lauro? – não reconheci bem a voz, só
pensava em Lauro.
Silêncio ensurdecedor.
- Não atira, porra! Pode ferir teu neto!
Olha, eu tô desarmado – continuei com minha voz mais calma, jogando a arma
longe.
- Me dá o Nicolas.
Agora sim, eu sabia quem era. Alex. O
jogo havia virado. Todas as fichas no preto, croupier.
- Nem fodendo. Me mata antes. –
permaneci imóvel, sem olhar pra trás, o cano do 38 enfiado no meu pescoço.
- Ainda não – o tom era sarcástico,
ele estava adorando aquilo. – Tenho que terminar o serviço com o Lauro antes.
- Onde? – arrisquei, só para ganhar
tempo. Se Alex estava comigo, eu bem sabia onde estava o Cappo.
- Perto do asilo. Atrás do muro do
pátio. Se estrebuchando, o desgraçado.
- Então vai mata e acaba logo com essa
merda.
Como resposta, um chute nas costas.
- Levanta daí, pega o menino com jeito e
vai andando na direção do asilo. Uma gracinha e mato os dois. Se tu tiver muita
sorte, acabo contigo e levo o guri de refém. Tu quer que teu filhinho vire
presunto agora ou depois?
De novo – e sempre, desde que caíra sua
máscara – aquele tom aterrador, que não deixava dúvida sobre o futuro do
meu filho.
Na praça vazia, caminhei a passos
lentos, a arma agora colada nas minhas costas. Nenhum sinal de vida dentro do
asilo. Desativado, Próximo ao muro, ouvi a voz de Lauro tentando articular
sons, mais grunhidos do que palavras. Alex me empurrou com brutalidade.
- Olha teu sogrinho querido ali. Tá
vendo o que acontece com quem atravessa de mau jeito meu caminho?
Espiei por cima do muro. Meu estômago,
acostumado a tanto horror, embrulhou. Em agonia, ali jazia Lauro João Lauro
Buarque Rinaldi, metade da cara virada uma massa sanguinolenta. Vermelho
sangue, nenhuma ficha, nenhuma aposta mais.
- Cara, acaba com ele de uma vez –
gritei – A culpa dessa cagada toda é deste puto, não é?
- Não. Deixa ele se acabar aos
pouquinhos. – O uso do diminutivo tornava tudo mais macabro – Mesmo porque,
Marquinho, tudo isso é culpa tua, não dele.
Alex estava agora à minha frente, bem
perto. Para meu completo desespero, Nicolas se jogou nos braços dele.
- Papá, Papá – Não era comida que ele
queria agora, era o pai. O único pai que conhecera.
Alex aceitou o menino. Não pude fazer
nada para impedir.
- E onde está a mãe dele, aquela vadia?
- Laura? Laura tá morta.
- Morta? Como assim? - Alex grudou a
arma em minha barriga e engatilhou.
Nada mais me importava. Só queria que
tudo acabasse logo.
- Morta. Mortinha da silva.
- Então, alguém vai ter que pagar por
isso. – O tom não deixava dúvidas sobre quem seria o alguém.
Um tiro, seco, embaralhou as cartas de
um jogo com cada vez mais perdedores.
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