
Primeiro vem
a surpresa, claro. Ninguém espera tomar um tiro. A dor não surge
instantaneamente, vem antes uma pressão absurda e, não importa onde a bala
acerte, suas pernas vão fraquejar. O barulho vem um milésimo de segundo mais
tarde, ou seja, você só escuta o tiro depois que ele te acertou.
A expressão
no rosto de Alex era de total incompreensão.
Era ele que
tinha a arma apontada para mim.
Mas não
havia sido ela a disparar.
Seus olhos
se voltaram para as minhas mãos, vazias.
Mais uma vez
o choro de Nícolas se fez trilha sonora do momento.
Enquanto meu
ex-melhor amigo cambaleava, retomei o menino em meus braços, checando
rapidamente a possibilidade de que ele estivesse ferido também.
A princípio
o moleque escapara ileso mais uma vez.
Alex foi ao
chão e eu pude ver, às suas costas, quem havia disparado.
Um homem
calvo, cara fechada, o 38 cano longo agora apontado pra mim.
- Estou
preso, delegado?
Ele não
sorriu.
Baixei os
olhos e vi que a bala acertou em cheio a coluna de Alex. Se sobrevivesse (e
isso era bem pouco provável), jamais ficaria em pé novamente.
- Vai, tenta
pegar a arma - disse o careca.
Eu não tava
olhando pra arma, a ideia nem tinha passado pela minha cabeça. O menino no meu
colo, impedia qualquer intenção de movimento. Estava rendido.
- Muito bem,
qual é próximo passo? - Perguntei.
- O quanto
você sabe? - Ele devolveu.
- Acho que o
suficiente pra me encrencar. - Mentir era desnecessário. - Tem como o guri sair
dessa, ao menos?
Ele não
respondeu, mas a minha sinceridade fez com que relaxasse. O 38 apontava pro
chão agora.
- Esse filho
da puta aí fodeu com tudo, sabia?
- Sim, eu
sei.
- Tava tudo
certinho, todo mundo tava ganhando alguma coisa, mas o olho cresceu.
- Acho que
eu ajudei um pouquinho a foder com a vida dele. O guri é meu.
Eu esperava
uma gargalhada, mas ele cagou pro que eu falei. Meu cérebro estava tão cansado
que eu nem cogitava um plano, torcia por um pouco de sorte. Ou de piedade.
No chão, um
gemido quase inaudível revelou que Alex ainda se agarrava à vida.
O delegado
ainda me olhava, pensando no que fazer comigo e com o menino.
- Quanto
vale a tua vida?
- Minha vida
não vale nada. A do guri, meio milhão se o pai dele se for. Mas é dinheiro a longo
prazo, não tem valor pra ti agora.
- Esse
moleque é neto do Lauro, né?
- É sim.
Tanto tempo
de conversa dava a entender que havia uma chance, ainda que remota, de
negociação.
- O velho
Lauro tem muita grana ainda. E agora nenhum herdeiro, além do cu cagado aí?
- Eu não sou
parente.
- Talvez o
moleque valha o investimento.
Respirei
fundo e um todas as emoções reivindicaram espaço dentro de mim. O fato de ser
neto de Lauro e a apólice do seguro davam uma chance de que meu filho vivesse.
Mas a que preço? Nas mãos de um bandido travestido de policial? Por outro lado,
eu nada mais tinha a oferecer. Estava desarmado, cansado, totalmente em
desvantagem naquela situação.
- Me passa o
garoto.
Hesitei.
- Vamos, me
dá o guri.
- Me dá tua
palavra de homem de que vai cuidar dele.
- Melhor
morrer ouvindo uma mentira, né?
Trinquei os
dentes. Os braços pesavam uma tonelada. Como que prevendo o fim trágico de tudo
aquilo, Nícolas chorava mais alto. Pobre criança, eu não tinha o que fazer.
Dei um passo
na direção do delegado, que avançou com a mão livre para dar colo ao seu mais
novo investimento.
Foi quando o
inesperado se fez presente mais uma vez.
- Tira a mão
da criança, seu merda.
Alex, num
esforço sobrenatural, apontava a arma na direção do delegado.
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