sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Nícolas

Caprichei no tom de voz: tinha de passar alívio, confiança e, sobretudo, a determinação de quem ia, sim, mandar a localização.
- Ok, eu espero. Mas é bom ficar esperto, ainda tem muita gente minha espalhada pela cidade. Te encontrar é só uma questão de tempo – a voz de Lauro seguia ameaçadora.
Encerrei a ligação mas mantive o celular conectado por mais alguns minutos, para que o velho demorasse um pouco para entender que não ia ter porra nenhuma de localização. Porque eu não tinha uma razão sequer para acreditar na história dele. Alex, delegado, policial traidor, policiais em serviço (a mando de quem?), capangas – todos manipulados pelo Capo dei Cappi, o poderoso Lauro Buarque. Até mesmo Laura, a minha Laura, a mãe do meu filho, torturada e morta. Eu me negava a crer que fazia parte da quadrilha. Mas, então, que lugar seria aquele onde teríamos de passar antes de tomar o rumo da fronteira? Uma nova emboscada, onde me esperaria Lauro e a morte?
Na melhor das hipóteses, se eu aderisse, ia trabalhar pro mafioso. Mas era uma vida assim que eu queria para meu filho? Claro que não. Eu tinha chegado a um ponto de inflexão. Como nas mais banais novelas noir, minhas preferidas. Só que no meu caso não era fantasia. Era a vida. Ou a morte. Eu tinha que encontrar uma saída para nós, meu filho e eu. Longe, muito longe de tudo e de todos.
Três minutos foram o suficiente para eu me certificar de que meu distintivo e a carteira funcional estavam no bolso da calça; agarrar a mochila de Laura, quem sabe seria útil, enrolar meu filho e seu ursinho em minha jaqueta, acomodá-lo no colo e sair correndo dali. Do nada me dei conta: eu ainda não tinha visto o moleque caminhar. Estranho, mas sempre no berço ou no assento de trás do carro, como poderia?
O celular tocou. Bingo! Era Lauro. Saquei o chip e arremessei o mais longe possível, no rumo do valão imundo que margeava a ruazinha de casas miseráveis.
Agora era indispensável pensar no moleque. Parecia fazer tanto tempo que estava sem comer ou beber, nem mesmo água – será que já comia comida? Ou só tomava mamadeira?  Será que Laura tinha se lembrado de pegar o necessário para o filho? E o que seria mais urgente? Talvez comer e trocar a fralda. Será que ele ainda usava fralda? Afastei um tantinho do cós da calça. Caramba! Um fedor dantesco me disse sim, e que estava vencida há muitas horas. Pobre, como não tinha reclamado?
Mas antes eu precisava encontrar uma ruela escura que me levasse ao miolo da comunidade. Sempre existe, eu sabia de tantas rondas. E sem fazer barulho. Num canto sem iluminação de um beco deserto, agachei rente à parede, meu filho bem apertado contra o peito. Notei que o ursinho pendia dos bracinhos frouxos. Será que estava dormindo? Ou desfalecido? Ou. Parecia dormir, mas estava tão mole e pesado – um peso morto, como se diz. Não, não surta agora, Marco. Ele precisa de ti.
Inspirei profundamente, pela primeira vez aterrorizado. Medo de abrir a mochila e nada encontrar? Sim, eu tinha esse medo. Mas isso era pouco. Terror mesmo seria encostar no guri e nada encontrar também.  
Latidos de cães vadios me trouxeram de volta do inferno. Eu tinha de saber se seguiria vadiando na vida como um cão danado ou...  Lentamente, aproximei meus lábios do rosto do menino. Não fiz esforço para segurar o choro, contido há tanto tempo. E agora, mesmo dia, novamente. Tá ficando frouxo, Marquinho? - diria Alex. Não, é que a pele macia estava quentinha, nem muito nem pouco. Acho que é assim que deve ser, pensei bobamente. Está vivo. E parece não ter febre.
As lágrimas rolaram sobre a bochecha e ele abriu os olhos . Não tinha observado antes: eram   escuros, como os de Laura. E levemente amendoados.
- Mamá, mamá.
Mamãe, mamãe. Voltou-me a ideia de uma Laura desconhecida, bandida. Tinha planejado me usar e acabar comigo depois. Depois seria a vez de Alex, atraído para uma cilada como eu havia sido. Final feliz: grana no bolso, vida nova, ela e Nicolas, fora do Brasil. Ou com o pai-avô mafioso junto, quem sabe?
- Mamá, mamá – de novo, agora mais forte.
Tá querendo mamadeira, não mamãe, seu idiota.
E agora? A mochila, uma esperança. Bem em cima: uma dose de leite em pó, uma mamadeira com água. Bandida ou não, ela era uma boa mãe, afinal, não tinha descuidado do filho: ali havia o suficiente para os primeiros cuidados. Além da mamadeira, fraldas, uma muda de roupa, uma coberta.
Nada de comida de verdade. Será que ele ainda não come papa? Deve ser um kit básico, sei lá. Espero ter tempo de entender tudo direitinho.
Preparei o leite seguindo o instinto: para aquele tanto de água, a dose de pó. Mamou sofregamente, deu um arrotão assustador. A golfada oceânica azedou minha camiseta. Será normal, isso? Supus que sim, ele já dormia novamente. Exaustão, tristeza, saudade. Ou barriga cheia. Ou tudo junto, quem sabe.
Te orienta, Marco, divagações agora não servem para nada. Tu não pode ficar com a criança na rua. Tu tem que achar um abrigo. Enrolei meu menino na coberta, pendurei a mochila no ombro, caminhei na direção de algo que luzia para além do beco.
Cheguei a uma pequena praça, decadente, vegetação alta. Me esgueirei como pude entre os arbustos até encontrar um banco quase escondido pela ramagem espessa. Com extrema dificuldade (me parecia ter dez dedos em cada mão), segurando a respiração (como pode um ser tão pequeno produzir algo tão catinguento?), consegui trocar a fralda de Nicolas, que seguia dormindo, agora bem agarrado a seu mascote. E agora?
Um minuto para observar o entorno. Do outro lado da praça, um prédio baixo com várias janelas e uma pequena torre. Imaginei já ter visto algo parecido. Viagem minha, não podia ser. De todo modo, decidi deitar o menino no banco e dar um pulo até lá. Queria ver de perto.
­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­Não, eu nunca tinha visto aquele prédio. O nome sobre a porta central estava ilegível. Mas eu reconhecia a arquitetura e a finalidade. Podia jurar que era um Asilo de Velhos. Um asilo, tudo o que eu precisava: asilo.

Aliviado, virei na direção do banco onde deixara Nicolas. Foi aí que ouvi os primeiros estampidos do que se tornaria um feroz tiroteio. Meu filho, caído ao lado do banco, berrava sem parar.

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