Seguir a orientação da minha consciência naquele momento, respeitando o bom senso, a tolerância, orientações que recebi durante os anos de convivência nas operações policiais foram inúteis. Ali estava um valentão que na base da humilhação e do terror, obteve confissões de culpados e inocentes. Nenhuma inteligência estratégica resultaria em salvação naquele momento.
Eu tinha o corpo molhado e as roupas ensopadas. O tremor percorreu o meu corpo.
Reconheci no olhar de Alex o ódio, o vírus inimigo, a febre da morte.
Desprovido de qualquer bondade, a vingança nasceu do orgulho, da traição.
Somente o sangue do inimigo e o rebaixamento vil a condição de adversário traria à tona o que ocorre debaixo da vida. Dilatei os olhos, multipliquei as batidas do coração e o ritmo ofegante da respiração. Pânico.
Acuado pela tortura, flertando com o espectro da morte, rezando para acreditar que um milagre seria escapar, iniciei mais um dia de vida.
Um fio de memória. Caminhando, tentei recompor as ideias, regressara de um lugar de morte, precisei de um tempo para reconhecer o quarto onde estava.
O desconhecido e o inesperado provocavam medo.
Deitei novamente.
Apresentei-me para um tribunal, despejei todas as tolices e pecadilhos de um homem apaixonado. Não sou santo, prefiro perder o corpo e alma, mas nunca os prazeres.
Imaginei fazer a minha confissão sem temor, pois não tinha remorso.
De modo sensível confessei que vivi duas paixões inconciliáveis, o desejo por Laura e a admiração por Alex. Excitado pelos momentos de prazer e pretensa liberdade para amar e transar com a mulher de um amigo, comprovei que a razão serve somente para obter uma absolvição inútil. Eu desejava Laura, esta afirmação da minha vontade colocou a minha alma numa indiferença perfeita quanto ao sentimento de Alex, pensava ser livre pra escolher.
Laura era irresistível, nunca consegui ser livre com ela. Toda a ausência me abalava, enfraquecia, não me deixava nenhuma espécie de desejo igual por outra mulher, só tinha em mente a felicidade que havíamos prometido ao outro.
Admito que trai a confiança de Alex que tinha por mim uma amizade sincera, confiava-me seus pensamentos mais secretos, as pequenas e grandes transgressões. O meu mau humor era suportado com um comportamento esperado, sem julgamento.
Longe da atividade policial, com tempo, o casamento e o ciúme que tinha de Laura com ele, foram determinantes para evitar encontros particulares. O sentimento não se consegue enganar.
Eu não queria ficar privado do amor de Laura, tinha dependência, necessidade de amá-la. Meu amor foi um acontecimento, enorme alegria, desejo amoroso sem medo do amor. Longos papos, compreensão absoluta, planos, projetos ousados. O amor como o nosso tinha pouco significado para as coisas práticas. Sem noção de tempo, não interessava o lugar. Ninguém por perto, nosso amor era exclusivo. Alegria, aquela que só se sente na presença da pessoa amada. Sonhamos sem saber qual o dia e a hora em que ela não voltaria mais para casa.
Um dia ela foi pra não voltar, do menino nunca mais soube.
Bateu forte a porta.
Permaneci com os olhos fechados, preso ao fantasioso julgamento.
Só precisava do sossego para continuar a imaginar a plenitude, a felicidade e as cores do amor de Laura quando isto tudo terminar.
Abri os olhos machucados lentamente.
Vi Laura.
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