Eu poderia congelar aquele momento. Com certeza eu tinha em meus braços a melhor coisa que eu fiz na vida.
Tudo o que Laura e eu sentíamos um pelo outro, misturado naqueles pequenos traços.
Ele estava tão agarrado em mim, que eu podia sentir seu coraçãozinho acelerado, como pequenos tambores fora de ritmo. Daria minha vida por ele. E foi aí que eu saí daquele transe. Naquele momento eu não podia ser pai. Eu tinha que agir.
O delegado tinha sido claro: em poucos minutos aquele lugar estaria cheio de colegas que não morriam de amores por mim. Coloquei meu menino de volta na cama e com voz suave disse:
- Fica quietinho aí. O titio já volta pra te pegar, tá?
Titio. Que vontade de escancarar um papai. Mas coitado do guri. Já tinha motivos suficientes para passar uma vida fazendo terapia. Esse seria mais um. Eu podia esperar.
Coloquei o segundo pente na 765 e desci aquelas escadas o mais rápido que eu pude. Encontrei o delegado, o policial e Laura amarrados.
Desamarrei Laura e a puxei pela mão.
- Vamos. Não podemos perder tempo.
- E a tua missão? A tua missão, Marcos?
- Não vou colocar isso na minha conta. Vem.
Subimos as escadas correndo e voltamos pro quarto do Nicolas. Ele correu pros braços de Laura, que o beijou em meio a lágrimas de aflição. Pegou os documentos da caixa e, por último, um urso de pelúcia que estava em cima da cama do menino. Só uma mãe pra lembrar de um urso de pelúcia numa hora dessas.
Começamos a ouvir o barulho de sirenes ao longe. Parecia ser mais de uma viatura, mas não dava pra ter certeza.
A festinha estava pra começar e eu preferia estar longe dali, antes da primeira música tocar.
Descemos os três correndo, Laura foi até o policial e fazendo uma revista, achou as chaves do carro.
- Sua desgraçada. Isso não vai ficar assim - disse o delegado.
- Cala a boca, seu verme. Só não te mato hoje, por que odeio cumprir ordens de quem não confio - falei, segurando com raiva aquele queixo gorducho.
Saímos da casa e entramos no carro. Laura, o guri e o urso no banco de trás. Nisso, as viaturas foram chegando, já atirando.
Passei a 765 carregada para Laura, o pente extra que ainda tinha, engatei a ré e afundei o pé no acelerador.
Ela era boa de mira. Sempre saía bem nas provas de balística.
Fui andando em zigue-zague pra dificultar que nos acertassem. Eram três viaturas. Três contra um.
Atingi uma delas com a traseira do carro e com o impacto foi jogada a uma distância mais segura de nós.
Continuei, olhando pra trás e com o carro em alta velocidade puxei o freio de mão e dei um cavalo de pau, deixando o carro de frente. Dirigir olhando pra trás dá um puta torcicolo.
Passei pelas duas viaturas em alta velocidade e uma delas saiu em perseguição atrás de nós.
Os tiros não paravam e pelas minhas contas, Laura já estava no último pente.
- Mira nos pneus. Mira nos pneus, falei.
Ela deu dois tiros certeiros no pneu dianteiro esquerdo e a viatura perdeu o controle capotando várias vezes.
Vi pelo retrovisor os pneus virados pra cima e, finalmente, respirei aliviado.
Ela pegou Nicolas, que estava com o urso no assoalho do carro, atrás do banco do motorista e o abraçou forte.
- Tá tudo bem, meu amor. A mamãe tá aqui.
Comecei a sentir algo vibrando no meu bolso. Era o telefone. Atendi.
- Filho da puta. E a missão que eu te dei? Tu tá morto, Marcos. Morto! Pode escrever.
Laura arrancou o telefone da minha mão e colocou pra fora toda a sua fúria.
- Alex, tu vai te arrepender de ter nascido, seu desgraçado. Vou ser teu pior pesadelo. Pode acreditar. - E desligou.
- Marcos, pega a próxima avenida à esquerda e segue em frente. Temos que ir até um outro lugar, não fica muito longe daqui.
Nicolas pegou o urso e começou a cantarolar qualquer coisa, fazendo de conta que ele estava dançando.
- Cuida bem deste ursinho, meu amor. Logo, logo, a gente vai precisar dele.
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