sexta-feira, 1 de junho de 2018

Capítulo 14 - A troca

Ouvi quando a porta principal foi aberta. Na rua, as sirenes ainda gritavam. Fiz o possível para concentrar toda a minha percepção nos passos que aconteciam dentro da casa. O delegado não estava sozinho. Na minha confusa matemática, calculei, ao todo, três pessoas. O delegado, Laura e um terceiro, desconhecido por mim. Conversavam aleatoriedades. Era evidente que não viviam a mesma tensão em que eu me encontrava. Ou, talvez, fosse apenas teatro.
Saí do quarto e, no máximo silêncio possível, fui caminhando na direção deles. As vozes me guiavam pela penumbra da casa. Até que fui interrompido por um choro. Choro de criança. Colei o ouvido na porta que tinha o nome Nicolas grafado. Vinha dali. Girei a maçaneta. Diante de mim, em um quarto colorido, enquanto eu segurava uma 765, meu filho me via pela primeira vez. Fiquei imóvel.
- Acho que o barulho dos carros acordou ele – Laura apareceu de repente, pegando nossa mistura no colo.
Percebi os machucados no corpo dela, mas preferi focar na semelhança entre os dois. Eram tão parecidos! Pessoalmente, ainda mais. Tentando acalmar o garoto, ela caminhava entre a cama e o armário, acarinhando as costas dele. Esqueci o que eu fazia ali. Meu lado psicopata falhou.
- Posso segurar? – perguntei.
Laura me olhou com ar incrédulo e fazendo sinal para que eu falasse baixo.
- A sua missão está lá na sala – ela disse.
- Só um pouco – pedi.
Ela me entregou a criança ao mesmo tempo em que tirava a 765 da minha mão. Resmunguei alguma coisa e ela me calou com um rápido beijo.
- Preciso ir, vão desconfiar - ela falou.
Saindo do cômodo, deixou somente o seu cheiro por ali. Pude ouvir quando, na sala, para os demais, disse que o garoto já estava mais calmo.
Sentei na poltrona com o meu guri, que, deitado no meu ombro, se distraía brincando com a minha orelha. Eu era pai. Alex devia me odiar por isso. A alguns metros de nós, mais pessoas entraram na casa. Vozes diferentes. Gritos começaram. Uma discussão. Barulho de vidro quebrando. Um tiro aconteceu.
Pela primeira vez, silêncio. Larguei meu filho na cama, novamente aos prantos. Peguei a chave na fechadura interior e, com ele dentro, tranquei a porta do quarto. Fui ver o que tinha acontecido.

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