Um atendente gordo e com cara de poucos amigos me serviu o café. Não quis papo, eu também não insisti. Troquei a xícara por um copo descartável e fui beber no estacionamento, acompanhado de um cigarro.
Fazia frio. Ajustei a gola do casaco e busquei uma área protegida.
Alex estava morto.
Parecia mentira ou, no máximo, um sonho ruim.
O cara foi o primeiro amigo que fiz na academia de polícia, o único que não dava bola pro meu mau humor e ainda se divertia com isso. Era impossível contar a quantidade de vezes que um carregou o outro depois das bebedeiras de fim de semana, também era impossível de calcular as vezes que um cobriu o outro numa briga de bar ou numa abordagem policial. Se havia um cara em quem eu confiava era Alex. Sei que ele também sentia o mesmo. Talvez por isso a porrada por causa da Laura tenha sido tão forte.
Laura entrou em nossas vidas como um furacão. Transferida de outra cidade, começou a fazer parte de nossa equipe pouco depois que nos formamos e fincamos terreno em uma delegacia de homicídios da capital. Ainda lembro do delegado chamando o pessoal pra anunciar que o novo recruta era uma mulher. E bonita. Os ânimos exaltados com a perspectiva de uma alma feminina no nosso ambiente de trabalho foram silenciados com um dedo em riste: “Que ninguém diga uma gracinha pra ela. É filha de um grande amigo meu e minha protegida. Certo?”. Óbvio que isso só serviu pra deixar o pessoal ainda mais excitado e louco pra conhecer a garota.
Laura começou a trabalhar numa segunda. Entrou na delegacia de cabelo preso e óculos escuros. A cara de poucos amigos não escondia o nervosismo que as mãos trêmulas revelavam.
Apresentações feitas, ela foi designada para trabalhar com Alex, no meu lugar. Eu faria dupla com o Gonçalves. Que merda, justo o Gonçalves! Um cara que era alvo da corregedoria vez por outra por abuso de autoridade. O delegado justificou dizendo que confiava em mim pra colocar o cara no rumo certo.
Azar de uns, sorte de outros.
Alex não perdeu tempo e, menos de um mês depois, já engatou o namoro com a Laura. A real é que os dois combinavam como dois protagonistas de uma comédia romântica americana.
Meu amigo não me excluiu por culpa do namoro. Pelo contrário, puxou Laura pra dentro da nossa rotina. E ela se adaptou rápido à nossa maneira de ver (e viver) a coisa toda.
Até eu cruzar uma linha que não podia.
Até eu fazer a maior de todas as cagadas.
Terminei o cigarro e o café. Balancei a cabeça pra que a nostalgia e a culpa dessem um tempo. Ainda tinha um caminho pela frente antes de reencontrar Laura e fazer alguma coisa pela memória do Alex.
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