Em meio aos arbustos, me sentia frágil. Eu, que sempre tive o controle da situação, estava descontrolado. Todos os batimentos por minuto. Minha respiração, trôpega, fazia meu medo ser potencializado a cada passo. Eu esqueci como ser forte. Só pensava nas minhas fraquezas. Parecia tão fácil. E foi assim que eu vacilei.
Meu olhar estava distante. Por alguns segundos, que pareceram horas, eu esqueci qualquer regra que aprendi nos manuais da corporação. Aquela motoca vermelha me fez pensar na minha infância. Brincar de polícia e ladrão parecia ser mais fácil do que viver na espreita do perigo. Nunca quis ser mocinho. Levei isso à risca quando peguei meu distintivo. Eu jogava com as armas que tinha. E tinha poucas. O tiro sempre tinha de ser certeiro. Até a maldita ligação da Laura.
Com a arma em punho, minha mente estava fora do ar. Eu tentava olhar para os lados, mas meu corpo não respondia. O foco sempre voltava para a motoca vermelha. Não acreditava naquilo que via. Justo ela? O presente que dei para Laura quando o filho nasceu. Quando ele nasceu, não tive coragem de visitá-los. Mandei a tal motoca com uma dedicatória copiada da internet. Nunca fui bom com as palavras. Queria ser apenas ruim nas minhas atitudes.Ainda não entendia os motivos daquela sucessão de acontecimentos. A folha amassada, com toda a trajetória refeita desde a ligação, estava no bolso da calça. Pensei em consultá-la como se fosse uma solução. Desisti. Seria burrice. Mais uma, entre tantas, desde quando conheci Laura. De pronto, ouvi um barulho. Quase que um estrondo. Parecia algo próximo, logo em frente. Errado. Muito errado. Era atrás. Pouco atrás. Até hoje não consigo descrever o que aconteceu. A visão anuviou. As nuvens escureceram. Eu senti o sangue correr pelo meu rosto. Gosto amargo na boca.
Caí. Lembro disso. A queda foi sofrida. Aguda, demorada, eterna. Meu corpo pesou. Ali, apaguei. Simplesmente, a vida ficou pequena. Um fiapo de esperança no peito. Não lembro mais disso. Ou não quero lembrar. Acho que senti, inconscientemente, a morte batendo na porta. Silêncio. Muito silêncio. Uma, duas, três badaladas. Um sino, ao longe, me acordou dentro daquele carro. Aliás, será que era um carro? Estava com as mãos amarradas e vendado. Minha cabeça estava totalmente imersa em um saco. Tantos anos de vida para isso? Terminar em um saco de estopa? Precisava, definitivamente, de ar.
Quando acordei, só enxergava aquilo que não costuma se enxergar. Escuridão em meio à solidão. Cadê a Laura? Cadê o guri? Cadê eu? A cabeça latejava assim como a queda. Aguda, demorada, eterna. Minha respiração estava frágil. Minha vida estava frágil. Não ganhei nada. Só perdi. Perdi Laura. Perdi Alex. Perdi o guri. Depois de tanto tentar me encontrar, também me perdi. Respirei fundo. O poço não pode ser tão fundo assim.
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