sexta-feira, 20 de abril de 2018

Capítulo 7 - Reconhecimento

Num reflexo, meu rosto se virou na direção dela e a imagem do recente pesadelo, seu sangue e desespero, unidos aos hematomas e amarras da foto enviada por mensagem, num instante materializaram-se ali. Na (des)figura não sonhada nem digitalizada, mas real, de uma Laura de então que muito pouco tinha da Laura de antes.
Da LaurAlex, como era conhecida pelos colegas, a dupla mais ironicamente invejada, os namorados modelo que por detalhe não se fundiam num só. Ela odiava o apelido: “Eu sou eu, ele é ele” repetia vigorosamente. Eu também passei a odiar, com o tempo. Ela é ela, ela é Laura, nossa, minha Laura. Esbravejava, em pensamento. Mas no dia-a-dia, eu bem que tirava proveito daquela união. Onde antes éramos eu e Alex, Laura foi incluída, e o sentimento de irmandade que nutria por meu amigo foi muito rapidamente transmitido a ela, também. E transformou-se. De tanto que o meu amigo ensinou a mim, foi a destreza que usei para prestar atenção em seus movimentos e acompanhar olhares, deleitando-me aos mínimos vacilos. Alguns segundos de distração, minutos de ausência, aproveitados para reparar e decorar os traços do rosto e delineação do corpo de Laura.        
Estes que não tive nem tempo de buscá-los, por debaixo das manchas vermelho arroxeadas. Meu olhar foi desviado por um chute em cheio no queixo.
- Tá olhando o que, Marquinho?
Opa, essa voz eu também conhecia. O golpe não me deixou reconhecer de onde. Desorientado, vi estrelas, as do céu mesmo, tantas que denunciavam a distância que havíamos tomado do centro e toda a poluição que as esconde. Imediatamente comecei a ser arrastado, conseguindo vislumbrar o que deviam ser dois carros parados, um deles provavelmente o que me trouxera, muitas árvores, e pelos menos três pessoas encapuzadas, mais a que me puxava pelos braços. Seis, trabalho em dupla, um carro pra cada uma. Clássico. O raciocínio, porém, veio depois, Alex ficaria orgulhoso.
No momento só conseguia pensar na brita que arranhava as minhas costas e entrava pela minha calça, logo antes de sentir um puxão pra cima e em seguida tábuas de madeira contra a lombar. A hérnia gritou. Lá se vão seis meses de fisioterapia. Dois lances pequenos de escada depois, voltei a ser puxado na horizontal. Ufa. Senti dois raspões quase concomitantes nos ombros, me encolhendo em reflexo. Uma porta, e das grandes, de uma casa no meio do nada.

Nenhum comentário:

Postar um comentário