sexta-feira, 20 de abril de 2018

Capítulo 4 - Hora de usar a cabeça, Marco.

Quanto tempo fiquei ali, congelado, sem querer entender a estranha posição da cabeça tombada para o lado, o rosto deformado de Laura? Uma eternidade naqueles segundos, e o pesadelo voltando: sangue, Laura e o bebê, olhar vidrado em mim. E o remorso crescendo: Alex, Laura, e eu. E o bebê.

Quando enfim o sinal de emergência interior me tirou do transe, só conseguia ouvir a voz do Alex dos velhos tempos: “Pensa, Marco, respira fundo, raciocina, não te afoba, cara”.

Tínhamos feito uma parceria tão improvável quanto bem-sucedida: eu genioso, impulsivo; Alex tranquilo, cerebral. Meio estranho, até, me ocorreu naquele momento em que eu olhava sem ver a chuva batendo na vitrine da padaria.  Como meu amigo podia ser a um só tempo tão sensível e tão calculista?

Mas o momento não é para novas charadas, pensei. Já basta o que eu tenho pela frente. E sem esquecer que afoiteza pode significar um tiro no pé. Ou coisa pior. Era isso: hora de usar a cabeça. Te devo mais essa, Alex.

Aumentei a foto do celular e busquei algum indício que pudesse identificar o local. Nada. Na imagem, só o suficiente para ver as amarras e os hematomas. O suficiente para chocar.

Senti o estômago embrulhado de novo. Tão linda, tão amada, nossa Laura.

Fui ao balcão pedir mais um café e uma folha qualquer onde pudesse rabiscar. Droga de lei que proíbe fumar em lugares fechados, café sem cigarro não é a mesma coisa, pensei, catando nos bolsos algo que escrevesse. Alex certamente teria uma caderneta decente para me alcançar, mas vai no saco de papel, mesmo.

Percorrendo mentalmente o roteiro desde o toque do celular na madrugada, fui anotando as variáveis importantes. Minha experiência me ensinou que é preciso isolar cada uma e depois tentar reuni-las num todo buscando um sentido.

A voz de Laura, o choro. “Mataram ele, uma cilada, armaram pra cima dele”. Quem? Como? Onde? Por quê?  Desprezei o “mataram”: nada a fazer, agora, com o morto. O Como? também não interessava no momento, ainda que “cilada” e “aprontaram” pudessem dizer algo mais adiante. A importância da relação Onde-mataram-ele? se deslocara, depois da foto maldita, para Onde-está-Laura-agora? Essa era a urgência crucial, que vinha casada com Quem e Por quê, agora em relação aos dois fatos: a morte e a tortura. Nem me passava pela cabeça que estas duas últimas questões pudessem comportar mais de uma resposta. Desenhei um ponto de interrogação ao lado de cada um destaque. Grande. Mas eu já tinha uma primeira decisão: teria de começar de trás pra frente, pela localização da Laura.

Voltei às variáveis. “Pode vir agora?” Urgência na voz, um pedido de socorro. Por que não ela tinha chamado seus colegas policiais? Talvez a resposta tivesse a ver com “Aprontaram pra ele.” Segunda decisão: eu não poderia confiar em ninguém, não iria à delegacia.

“Tô segura agora”. Por que o “agora”? Antes não estava? Ou pressentia que o perigo morava no depois? Bem, a foto terrível e a mensagem enigmática eram um princípio de resposta.

Reli as anotações, procurando ligar os pontos e visualizar algum sentido. No papel, poucos dados e muitas interrogações. O que tinha acontecido entre o telefonema da madrugada e a chegada da foto? Onde seria o cativeiro de Laura? O que teria acontecido ao menino?  

Bem, a única referência que eu tinha era aquela do mapa: o endereço da casa de Laura. Teria de começar por ela. Ainda que eu duvidasse de que encontraria Laura ou seu torturador lá, a casa era o local onde eu poderia encontrar alguma pista.  

Cafés pagos, alcancei a rua e logo meu carro, estacionado frente ao hotel. Mostrei o endereço ao porteiro que fumava em frente à porta, talvez tivesse algo a dizer para além do aplicativo de mapas. Tinha: ficava pro lado do rio, na zona sul, em uma área de loteamentos novos. “Uns vinte minutos de carro”, informou.

Rodando pela cidade é que percebi que me enganara, ela não era mais a mesma. Para o sul, ruas recém abertas, condomínios novos. Quantos anos fazia mesmo que eu tinha ido para a Academia? Perto de vinte. Minha mãe morrera um pouco antes, meu pai e eu éramos estranhos, meu único irmão logo se mudaria para o nordeste, nenhum amor choraria por mim na rodoviária. Ao entrar no ônibus para a capital, eu levava uma mochila e duas certezas: seria um policial e, com sorte, nunca mais pisaria naquela merda de cidade.

E agora, o azar. Meu ex-melhor-amigo morto, minha ex... ex o quê, mesmo? Deixa pra lá, não é hora de lembrar os rolos do passado. O caso agora é outro: Laura em perigo, se não já morta, o menino sabe-se onde. Eu queria muito saber do menino. Mesmo sem ter nunca visto sequer uma foto do guri, me pegava pensando  nele com alguma frequência. E isso desde que eu soube da gravidez de Laura, ainda antes de tudo vir à tona. Como seria ele? Parecido com a mãe?

Meu devaneio foi interrompido pela indicação do aplicativo: estava próximo à Travessa dos Ipês. Cruzei o portal sem guarita de um loteamento arborizado. À primeira vista, poucas casas concluídas. Não havia luxo ali, me pareceu. Lotes de mesmo tamanho, casas iguais: cercas brancas, pequeno jardim, cenário perfeito para aquele casal que poderia estrelar uma comédia romântica. Só que não mais.

Quase ninguém na rua. Era aquela hora da manhã em que os madrugadores já saíram em bando e o movimento de volta da escola ainda não tinha começado. Melhor assim.

Estacionei na rua de destino, a uma quadra do número 187. Caminhei rumo à frente da casa observando disfarçadamente o entorno. Estava à paisana – evidente – e ninguém me conhecia ali. Ponto pra mim. Passei o portão, dei a volta na quadra. Na rua de trás, o terreno que dava fundos ao de Laura se escondia dos passantes por um tapume precário.

Foi fácil encontrar uma tábua solta. Fiquei um tempo agachado, um olho na rua, outro espiando pela fresta: nas redondezas, ninguém; atrás do tapume, um mato alto. Forçando a abertura, passei espremido entre as tábuas. Maldita cerveja.

Eu já não era mais o homem complicado e cheio de dúvidas, era o policial. A pistola na cintura ao alcance da mão, rastejei até o limite do terreno da casa de Laura.

Adrenalina subindo, Alex comigo: “Respira, cara, observa, vai, Marco”.

Nenhum sinal de vida, nenhum ruído. No quintal, indícios da vida doméstica: roupas no varal, um pequeno carrossel, uma motoca vermelha.

Me pareceu barbada transpor o muro do fundo e me esgueirar rente aos arbustos da divisa lateral. Depois me ocorreria que foi essa facilidade que me fez baixar a guarda.

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