O trajeto truculento e pouco amigável me deixou moído, mas ainda não tinha acabado. Fui arrastado para o que parecia ser uma grande sala. Os pés firmes que me puxavam, em contato com o assoalho provocavam um rangido tão horrível, que a impressão que eu tinha é que o chão ia ceder a qualquer momento.
Não havia móveis, a não ser uma cadeira de madeira. Fui jogado nela sem dó nem piedade, em meio a chutes e tapas na cara até que eu estivesse devidamente acomodado.
Meus braços foram amarrados e ali eu entendi que a noite ia ser longa. Eu sentia a boca seca e um hálito de sangue que me provocava náuseas. Uma goteira intermitente começou a pingar bem no meu nariz. Comemorei. Mas logo percebi que o que parecia ser a minha salvação, também seria o meu calvário.
Ouvi o som da porta batendo. Estava sozinho. Tentei mexer a cadeira, mas foi inútil. Estava presa à parede. Inclinei a cabeça para trás e fui deixando aquelas gotas invadirem a minha garganta. Foi o meu melhor momento naquelas últimas horas. Eu poderia cantar. Sorrir, até.
Ali sozinho, com o cérebro a milhão, comecei a analisar a situação, tentando trazer um pouco de lucidez praquele caos em que eu havia me metido. O que estava acontecendo ali não parecia se tratar de uma simples execução. Caso contrário, Laura e eu já estaríamos mortos há muito tempo. Alguma coisa não estava batendo. Queriam a gente vivo. Queriam ver a nossa degradação. Mas quem? Quais as motivações? Prendemos tanta gente. Com certeza éramos persona non grata em muitos lugares e nosso nome devia estar na lista de muitos. De novo lembrei da Laura desfigurada. Meus punhos se contraíram de raiva. Talvez ela nunca mais voltasse a ser aquela mulher que despertou em mim sentimentos tão controversos e intensos.
Eu desci muito baixo para que ela olhasse pra mim. Usei a sua fragilidade e insegurança a meu favor, me agarrei aos piores defeitos do Alex e fiz com que eles se sobressaíssem, manipulei os fatos e deturpei informações; fui construindo uma teia tão bem emaranhada, que quando tudo aconteceu, foi só o desfecho de um plano que para mim, parecia perfeito.
Me transportei praquela noite, quando ela chegou no meu apartamento desorientada e com as pupilas dilatadas pela raiva. Eu só tive que oferecer meu ombro e meus ouvidos. Tudo o que veio depois foi uma explosão de uma tensão que há tempos estava abafada entre nós. A gente era gasolina e fósforo. O coração acelerado, a violência daqueles beijos, nossas roupas sendo arrancadas, a truculência do sexo, o êxtase e a maldita culpa.
Fui sendo vencido pelo cansaço. Cada pálpebra parecia pesar uma tonelada. Eu precisava dormir. Mas aquela goteira desgraçada me lembrava de que aquilo ali não era um hotel e que a intenção era esta mesma: me torturar até o limite. Salvação e calvário, pensei.
Ouvi um rangido vindo da escada. Os passos eram lentos e o som vinha num crescente até que a porta se abriu.
- E aí, Marquinhos? Tá confortável aí?
Nem nos meus piores pesadelos eu poderia imaginar que o responsável por aquilo tudo era ele. Eu ainda nem tinha me refeito do baque de saber que meu melhor amigo e parceiro tinha sido executado. Desde o momento em que recebi aquele telefonema desesperado da Laura, estava usando tudo o que eu tinha aprendido na polícia para juntar as peças deste quebra-cabeças e de repente, a resposta estava ali, bem na minha frente, tão clara quanto água.
- Alex, seu filho da puta!
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