sexta-feira, 20 de abril de 2018

Capítulo 3 - Na cidade

Cheguei um pouco antes do amanhecer. A cidade estava do mesmo jeito que eu lembrava. Depois de um tempo, tudo que você quer é nunca mais voltar pro lugar onde nasceu. Sim, ironia pura, a cidade que Alex e Laura escolheram para ficar longe de mim era minha cidade natal.
Estacionei o carro em frente a um hotel vagabundo no centro. Pensei até em alugar um quarto, mas a urgência da situação e a falta de grana me fizeram desistir. Peguei o celular e digitei uma mensagem, avisando Laura que havia chegado. Aguardei alguns minutos, a resposta não veio e eu botei na cabeça que ela tinha conseguido dormir. Melhor não incomodar. Tirei uma camiseta da mala, improvisei um travesseiro e deitei o banco até o limite. Uma horinha de sono não faria mal. E ele veio rápido, carregando junto um sonho que começou bem: eu e o Alex numa mesa de bar rindo de alguma coisa. Estávamos jovens novamente, como no tempo da academia. A cerveja rolava solta, trazida por belas e sorridentes garotas. Até que Laura apareceu de repente, com o rosto todo sujo de sangue e chorando. Carregava nos braços um bebê. Ele chorava também, mas não movia a boca e seus olhos estavam vidrados em mim. Eu não conseguia respirar e tentava desesperadamente fugir daquele lugar, mas meu corpo não respondia. Tentei gritar. Em vão.
Acordei num salto.
Já era dia.
Lá fora a neblina tinha dado espaço a uma chuva fina.
As pessoas já se movimentavam apressadas em direção ao trabalho, esbarrando seus guarda-chuvas ao se cruzarem.
Esfreguei os olhos e consultei o celular.
Laura ainda não tinha visualizado a minha mensagem. Descansa, garota, teu dia vai ser horrível, melhor encurtá-lo o máximo possível.
Saí do carro em direção a uma padaria. Um café e um pãozinho com manteiga cairiam bem.
De estômago forrado, voltei a tentar contato com Laura, mas a situação permanecia a mesma.
Resolvi ligar.
O telefone chamou, incansável, até cair.
Estava no silencioso, só podia.
Mas algo dentro de mim me fez insistir.
Novamente chamou até cair.
Meu estômago embrulhou.
Bobagem, pensei. Ela está bem. Mas, por algum motivo a imagem do sonho voltou à minha cabeça. Laura e o bebê chorando. O sangue. Busquei conforto num cigarro. Já ia acendê-lo quando o celular vibrou.
Era uma mensagem dela.

Precisei de alguns segundos pra acreditar no que estava vendo. Era uma foto. Laura estava amarrada à uma cadeira, desacordada. O rosto cheio de hematomas. Acompanhava a foto uma mensagem: “Volta pra casa, idiota. Aqui não tem nada pra você!”.

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