sexta-feira, 20 de abril de 2018

Capítulo 6 - Encontro


Ainda recobrando os sentidos, e com a cabeça coberta por um saco, ficou inevitável: joguei a atenção para o que podia ouvir. E as vibrações que insistiam em bater nas paredes dos meus ouvidos traziam as ondas sonoras de uma rádio local, tocando justamente uma música que eu odiava e que o Alex sempre ouvia.
Era meio que uma lembrança, que me dizia o que eu tinha ido fazer na maldita cidade. Mas, então, começou uma música que eu gostava. Pura memória afetiva. Esqueci do Alex. Lembrei de outra coisa.
- Que bela cagada nós fizemos, hein?
- Bom, eu pensei que…
- Pensar foi tudo o que não fizemos! Marco, ouça bem!
- Com essa dor de cabeça, ouço até os passos das formigas.
- É sério, Marco. Ninguém nunca pode saber disso.
Um diálogo curto, que encerrava uma longa história. Foi assim, há uns três anos, a minha última conversa olhando nos olhos da Laura. Ela partiu da capital levando na bagagem o certificado de um curso e na memória um segredo.
O carro seguia em movimento. Eu já não sabia há quanto tempo estava rodando. Desde que tinha acordado, já tinha tocado muita música ruim, mas nenhuma vez o horário foi dito, o que só confirma o amadorismo daquela bosta de FM. E quando eu começava a tentar esquecer os problemas antigos e começava a focar novamente na minha sobrevivência, “Pronto!”, um grito e o freio de mão anunciaram que eu cheguei. A qualquer lugar.
Me tiraram do carro, ouvi uma porta de ferro abrir e senti meu corpo voar. Fui arremessado. Enquanto meu corpo voava, o saco saiu da minha cabeça. Isso foi um pouco antes da aterrissagem - feita direto com a minha cara. Caído, fui agarrado pelas mesmas mãos que me jogaram, quando ouvi aquela doce voz - que eu reconheceria até no inferno - agora estridente e apavorada.
- Solta ele, seu psicopata!

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