O telefone tocou logo depois das duas. Normalmente deixo ele desligado, mas depois da quantidade de cerveja que tomei, o telefone era a menor das minhas preocupações. Os toques foram ficando mais altos na medida que eu trocava uma confusão de imagens pela sensação desconfortável de acordar sobre o braço e ainda vestido. Pisquei os olhos e tateei sobre o criado-mudo, derrubando tudo que tinha ali em cima. O celular foi a última coisa que encontrei. Atendi num rosnado.
- Quem é?
Silêncio.
Repeti:
- Quem é?
- Marco? – Voz de mulher.
- Sou eu. Quem tá falando?
- É a Laura.
Minha história com a Laura é tão enrolada que é até difícil de explicar. Por enquanto basta dizer que é algo de que me envergonho muito.
- Oi – não sabia o que falar. Tudo bem?
- Mataram ele, Marco. – Ela estava chorando.
“Ele” era o Alex. Meu melhor amigo no passado e pivô de toda merda com a Laura. Eles tinham casado e, depois do rolo, foram morar numa cidade do interior, 300 quilômetros da capital.
- E você, tá bem?
- Tô segura agora.
- Como aconteceu, Laura?
Ela respirou fundo do outro lado da linha.
- Foi uma cilada, armaram pra cima dele.
No passado tinham armado pra cima de mim também. Gente da delegacia. Fizeram de tudo pra que eu perdesse o distintivo e saísse da corporação sem honra alguma.
- Gente daí? – quis saber.
- Não tenho certeza, Marco. Tem como você vir pra cá?
- Claro. Onde te encontro?
- Te mando a localização por mensagem. Pode vir agora?
- Posso. E o guri? – Eles tinham um filho de poucos anos, dois eu acho.
- Tá comigo.
- Ok. Antes de amanhecer eu chego.
- Obrigada – ela disse, desligando.
Minutos depois recebi o mapa por mensagem.
Tomei um banho gelado, joguei meia dúzia de roupas numa mala e juntei os trocados que me restavam pra gasolina.
Estava no meio do caminho quando a neblina apertou.
Não ia ser fácil reencontrar a Laura. Havia ainda cicatrizes profundas em nós dois. Ela devia tá muito desesperada pra ter me ligado. Mas ajudá-la era o mínimo que eu podia fazer. Tinha essa dívida com Alex, pelas merdas do passado.
Faltavam menos de duas horas pra chegar lá.
Uns minutos pro o café não fariam diferença.

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